Instituto José Maciel

Memorias de um velho

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Yuno Silva - Repórter20/03/2009 -

Tribuna do Norte 

“Um dia, 20 de maio de 1956, Eloy de Souza começou a escrever. Fui seu datilógrafo nas primeiras 180 páginas (...)”, escreveu Luís da Câmara Cascudo em dezembro de 1959, dois meses após a morte do estadista Eloy de Souza (1873-1959), um dos nomes mais influentes da política nacional logo na primeira fase do Brasil República. Inclusive, o título dessa matéria é empréstimo de um artigo escrito na época, por Cascudo, sobre a necessidade de se publicar as memórias do velho Eloy.

Pernambucano de nascimento e potiguar de coração, ‘por acaso’ irmão dos poetas Henrique Castriciano e Auta de Souza, Eloy de Souza é, para os desavisados, apenas o nome de uma rua, praça, instituição, biblioteca, faculdade ou município – nem imaginam o tamanho do capítulo que ele escreveu por essas e outras terras ao redor do Mundo.

Justamente para sanar a crescente desinformação que paira sobre a combalida identidade cultural potiguar, principalmente entre a nova geração, o livro “Memórias” - originalmente editado pela Fundação José Augusto em 1975 – será relançado nesta sexta-feira, 20, às 20h, na Casa de Cultura de Macaíba.

 

Essa segunda edição foi impressa na gráfica do Senado Federal, com apoio do senador Garibaldi Alves Filho. O livro foi totalmente revisado pela jornalista Rejane Cardoso, ‘neta torta’ de Eloy, que incluiu sessão iconográfica com fotos da época e fac-símile de documentos; índice onomástico (de nomes) e nova divisão de capítulos “para facilitar consulta e leitura”, disse ela.

“Eloy de Souza foi pioneiro nas discussões ecológicas e questão da seca no Nordeste. Sua história política atravessa toda a República Velha até o Estado Novo... vai desde o convívio com escravos até a vivência com Alá, quando visitou o Egito em busca de respostas para o problema da seca no Brasil. Um estudioso que se interessava muito pelo bem estar do seu povo e da sua terra”, explica Rejane, que “deu uma trabalhada no livro” mas sem grandes alterações “para não comprometer a essência”.

Rejane também acrescentou notas explicativas para ‘traduzir’ palavras que caíram em desuso e identificar lugares que foram descaracterizados ao longo dos anos. Na introdução do livro, Rejane explica sua condição de neta torta: “(...) Eloy casou já na idade madura com a minha vó Alice Xavier de Souza. Foi um avô inesquecível para os três netos tortos”, escreveu. O prefácio e a orelha do livro são assinadas pelo mestre Câmara Cascudo.

O relançamento de “Memórias” marca o cinqüentenário da morte de Eloy, que ditou todas as informações contidas nas mais de 500 páginas.

O “conversador magnífico”, como era chamado por Cascudo, também passeou com desenvoltura pelo jornalismo sob o pseudônimo de Jacinto Canela de Ferro, deixou sua marca como economista e foi um dos mentores da criação do  Departamento Nacional de Obras Contra as Secas – DNOCS.

“Sua importância dentro do contexto político nacional é indiscutível, por isso a obra é essencial para se entender um pouco mais da história do RN e do Brasil”, lembra Rejane. “Eloy de Souza foi o Deputado Federal mais jovem da história, tinha 21 anos quando assumiu o cargo. Passou 20 anos na Câmara e mais 18 anos no Senado”, finaliza.

Se puxarmos da memória e refizermos as contas, Eloy de Souza viu a história política da primeira República passar ao alcance de seus olhos, o leitor curioso poderá traçar um panorama de toda uma época, nem tão remota assim, e acompanhar detalhes da vida de pessoas importantes que cruzaram o caminho do mais potiguar dos pernambucanos.

 

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