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Comendador Juvino Cesar Paes Barreto | Ignez Augusta Paes Barreto

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Quis o diretor dos Salesianos de Natal, o meu ilustre amigo, pé. Luiz Santiago, comemorar com as tocantes e expressivas solenidades deste evocativo cinco de agosto, o transcurso do vigésimo segundo aniversário da morte da doadora desta Casa, trazendo para o vosso convívio, durante alguns minutos, através de minha palavra, sem brüno, mas sincera, alguns dos aspectos mais interessantes da vida de Juvino Cezar Paes Barreto e de sua esposa Ignez Augusta Paes Barreto; da vida dessas criaturas a cujas memórias ergueram, construíram os padres Salesianos, com as pedras mais preciosas da verdadeira gratidão, este panteôn de corações juvenis, onde aqueles dois nomes, gravados com o ouro vivo do reconhecimento, permanecerão eternos para a homenagem de nossa admiração.

Bernardo Semeria, doador da livraria "Doutrina Cristã", construída no mesmo lugar em que nasceu D. Bosco, e de cujas oficinas já saíram mais de quatorze mil volumes que se derramaram por todo o mundo, difundindo a boa leitura, os bons exemplos, bem como a verdadeira ciência, em suas múltiplas formas, afora cerca de setecentos e cinqüenta quilômetros de filmes educativos, catequéticos e diciáticos; o Conde Eugênio Rebandengo, que em vida doou todos os seus haveres aos Salesianos, permitindo-lhes a fundação, em Turim, da primeira Faculdade de Pedagogia Salesiana, afora outras instituições educativas e culturais; bem como muitos outros, cuja enumeração se tornaria enfadonha, têm também, como Juvino e Ignez Barreto, os seus nomes eternizados nessas casas Salesianas, desde a primeira, a de Turim, que nasceu de um milagre das mãos de seu fundador e sob a proteção de Maria Auxiliadora, até as mais longínquas, espalhadas que estão por todo o mundo, como uma afirmação de fé, como um exemplo da dedicação e do amor que devotam á juventude os padres Salesianos, fieis á doutrina e aos ensinamentos do santo fundador da ordem.

Minha escolha para fazer esta palestra sobre a Família Paes Barreto não se deve a nenhum mérito literário de minha parte, que sei não possuir para o bom desempenho desta delicada missão; mas, certamente, por tratar-se de um íntimo da família, de um sobrinho dos homenageados, dessas duas personalidades que deixaram, em sua passagem por esta vida, não o efêmero rastro luminoso das estrelas cadentes, quando rápidas riscam o azul diáfano ou o veludo negro de nossos céus, mas uma luz suave e benfazeja, irradiada de seus corações generosos e bons, luz essa que eterna ha de iluminar esta Casa Salesiana, onde a história de suas vidas será sempre um grande livro aberto á nossa meditação e um grande exemplo digno de ser imitado.

Juvino Barreto e Ignez Barreto, atraídos pelo mais puro amor e pêlos elevados sentimentos de bem servir á humanidade, que já medravam em seus jovens corações, uniram seus destinos, sob as bênçãos da Igreja, no dia 28 de Janeiro de 1873, tendo Juvino, nessa época, 27 anos, e Ignez Barreto apenas quinze.

Juvino Barreto nascera na povoação de Aliança, distrito da cidade de Nazaré, Estado de Pernambuco, em 2 de fevereiro de 1846. Era filho legitimo do Cel. Leandro Cezar Paes Barreto e Da. Ümbelina Cezar Paes Barreto. O Cel. Leandro, seu pai, era homem de caráter, temperamento de lutador e de abnegado, de verdadeiro patriota. Tomara parte na revolução de 1848, em que comandara as tropas rebeldes, demonstrando, nos encontros com as forças legais, muita bravura. Fracassada a revolução, foi o Cel. Leandro preso para Fernando Noronha. Voltando ao seio da família, depois de indultado, com os demais companheiros, pelo Governo Imperial, dedicou-se inteiramente á educação dos filhos. Quando, em 1856, o cólera, ceifando milhares de vidas cobria de luto e de dor a sua terra, o Cel. Leandro num impulso legitimo de desprendimento, de abnegação e de coragem, deixou a segurança do lar, dedicando-se inteiramente a assistência ás vitimas do terrível mal, visitando-as, medicando-as, ajudando-as nos transes mais pungentes. E pagou com o sacrifício da própria vida, vítima também que fora do cólera, a sua inexcedivel dedicação aos infelizes, aos sofredores.

É, pois, dessa estirpe de homens abnegados, que descende Juvino Barreto. Por isso mesmo, a sua vida não foi uma improvisação, mas sim uma continuidade desse mesmo elevado espírito de altruísmo, de amor à família e ao trabalho, de compreensão, de desvelo pêlos pobres e pêlos necessitado que herdara de seus antepassados.

Desde tenra idade revelou-se Juvino Barreto um herói do trabalho, zelando e amparando a sua família. Órfão aos dez anos de idade, ficou Juvino Barreto com sua mãe e irmãos na mais extrema pobreza. Para garantir a subsistência dos entes queridos, conseguiu então modesto emprego num estabelecimento comercial de Nazaré. À noite, depois das canseiras do dia, em vez do repouso que o corpo reclamava, trabalhava até muito tarde, sob a luz bruxoleante de uma lamparina, numa modesta oficina de encadernação que ele próprio montara em sua casa e da qual tirava os resultados que muito o auxiliavam na manutenção da família.

Prosseguindo em seu trabalho com aquele mesmo espírito de lutador que lhe era peculiar, foi aos poucos vencendo na vida e prosperando. Em 1869, veio para o Rio Grande do Norte, para a cidade de Macaíba, onde se associou com o seu irmão Júlio Barreto, mais velho, ao major Amaro Barreto de Albuquerque Maranhão, dedicando-se ao comercio nas cidades de Natal, São José e Macaíba.

Em 1871, ao agitar-se a idéia abolicionista, fundou Juvino Barreto, em Macaíba, a "Libertadora Macaibense". Decisiva e digna dos maiores aplausos foi a sua ação á testa dessa sociedade pela libertação dos escravos, auxiliando-os em suas fugas perigosas, tudo fazendo ao seu alcance, ao alcance de sua coragem e de sua dedicação sem limites, para livrá-los do jugo humilhante, dos sofrimentos, da ferocidade de impiedosos e desalmados feitores e senhores. A sua atuação, nessa primeira fase da luta abolicionista, valeu-lhe a condecoração do "Habito da Rosa", com que foi agraciado. Depois, em Recife, no furor da luta abolicionista, já em 1887, fundou Juvino Barreto, com Barros Sobrinho, João Ramos, José Mariano e tantos outros, Célebre "Clube do Cupim", sendo também escolhido pêlos seus companheiros de ideal para um dos diretores da "Sociedade Abolicionista Pernambucana". No ano seguinte, a Princesa Isabel assinava a célebre LEI ÁUREA, de 13 de Maio, da libertação dos escravos, por que tanto lutaram esses abnegados brasileiros, dentre os quais Juvino Barreto teve papel preponderante.

Vencedora a luta abolicionista, dedicou-se ele,com o mesmo ardor, com o mesmo elevado idealismo, á luta pela implantação da república, já em plena efervescência. E, em 27 de janeiro de 1889, com um grupo à frente do qual estavam Pedro Velho, João Avelino Pereira de Vasconcelos, Zacharias Monteiro, Augusto Severo e outros, fundou o "Clube Republicano", na residência do Cel. João Avelino, ao lado da matriz do Bom Jesus, no mesmo lugar em que foi construído o nosso "Grande Hotel".

Quando em Macaíba pela primeira vez, conheceu Juvino Barreto aquela que Deus reservara para sua companheira na vida: Ignez Augusta de Albuquerque Maranhão, nascida em Guarapes, no dia 22 de setembro de 1859, filha desse casal ilustre que deu ao Rio Grande do Norte os filhos que tanto o engrandeceram e elevaram, nas ciências, nas artes, na musica, na política e na administração — Amaro Barreto de Albuquerque, Maranhão e Felíciana Maria de Albuquerque Maranhão.

Moça exemplar, dotada de todas ás virtudes que podem ornar uma alma cristã e um coração bem formado, foi Ignez Barreto, em toda a sua existência, o anjo tutelar, a companheira inseparável e abnegada, e — por que não dizer? — a inspíradora de todos os grandes cometimentos de seu esposo.

Regressando de Recife, para onde fora depois d.s casado, por motivo de transferencia, para aquela cidade, dos negócios com seu irmão Júlio, veio Juvíno Barreto residir com o seu cunhado Fabrício Maranhão, no antigo porto de Guarapes, onde restauraram a importante casa fundada pelo Major Fabricio Gomes Pedroza.

Espirito empreendedor e progressista, idealizou Juvino Barreto a criação de uma industria para a terra que o acolhera de braços abertos e onde encontrara a fiel companheira para todas as suas horas de luta, sofrimentos e alegrias. E nasceu na, mente privilegiada daquele homem a ideia da fundação de uma fabrica, em Natal. Essa ideia não parou; pelo óontrário, cresceu, floriu, avolumou-se e, por fim, tornou-se magnifica realidade. Não a detiveram os múltiplos obstáculos que se antepunham ao seu avanço. A indiferença e a critica dos céticos, que não podiam conceber uma fabrica na modesta província, ruiram ante a vontade férrea de Juvino Barreto. E solidário com o seu pensamento e confiante em seu tino administrativo, o seu sogro, Major Amaro Barreto, transferiu-lhe a concessão e os terrenos já adquiridos para a instalação de uma fabrica de tecidos.

E a pedra fundamental foi lançada no ano de 1886, no alicerce da velha chaminé, ainda existente. E sob os aplausos de uma multidão deslumbrada, como embalada ainda na miragem de um sonho oriental, foi solenemente inaugurada, no dia 21 de Julho de, 1888, pelo então presidente da província, António Francisco Pereira de Carvalho, a "Fabrica de Fiação e Tecidos Natal". A benção foi dada pelo vigário, Padre João Maria.

Inicialmente, tinha a fabrica 48 teares, 1.600 fusos, e 80 operários. As primeiras peças de tecido saídas de seus teares foram entregues, no dia 29 do mesmo mês, ao virtuoso vigário Padre João Maria, já canonizado Santo pela gente de nossa terra, para que fossem distribuídas aos pobres.

A Fabrica de Tecidos conquistou em pouco tempo o operariado modesto de nossa terra, e os empregos na Fabrica de Seu Juvino, como a chamavam, eram disputados à medida que a mesma ia se desenvolvendo e novas vagas surgiam. Todos queriam tê-lo como chefe, sabida como era a sua inexcedível bondade, ao par de um elevado e nobre sentimento de justiça.

É que Juvino Barreto não era só o patrão.

Aliás, na sua fabrica, nunca foi simplesmente o patrão. Ele era, e todos o proclamavam, o amigo, o conselheiro, o protetor e, mais ainda, um verdadeiro pai. Nunca (eu afirmo, e os que tiveram a alegria de conhecê-lo pessoalmente, como esse venerando e querido nonagenário, meu dileto amigo Snr. João Batista Gondim, com quem tive ha dias a satisfação de conversar demoradamente sobre a vida de Juvino Barreto, podem também afirmar) nunca, repito, qualquer operário, do mais modesto ao mais graduado, apelara para o chefe, nos momentos difíceis de sua vida, q .e não fosse atendido. E a bondade, a dedicação de nosso homenageado não se limitava apenas a ajuda financeira. Ia mais além; aconselhava, orientava, assistia-lhes e, nessas ocasiões, o patrão desaparecia completamente, para surgir o amigo desvelado, o verdadeiro apostolo do bem, o que foi, incontestavelmente, uma das facetas preponderantes do seu caráter de escol.

Ao lado da fabrica de tecidos, nesta mesma rua e justamente em frente ao prédio onde reside o nosso grande historiador Câmara Cascudo, construirá Juvino Barreto a capela-escola "São José", onde funcionava um curso de alfabetização para os filhos dos operários, e onde também lhes era ministrado o ensino religioso.

As Imagens dessa antiga capela de "São José foram transferidas para a capela da "Vila Barreto", e hoje se encontram na capela desta Casa Salesiana, presidindo, imóveis, do alto de seus altares, ao desdobramento da obra de seus doadores, abençoando a multidão renovada de fiéis e de crianças que se ajoelham diariamente aos seus pés, pedindo-lhes, implorando-lhes a misericórdia de suas graças.

Essa fabrica de tecidos, como todos nós sabemos, não existe mais. Depois de passar por diversos donos, que não souberam ou não puderam fazê-la reviver os dias de prosperidade de seu fundador, ficou com o Banco do Brasil, que a vendeu à firma Martins, Jorge & Cia., do Pará. O então interventor federal, Comandante Herculano Cascardo, procurou, num gesto muito louvável, obstar à sua saída, mas não o conseguiu.

Restam hoje as velhas paredes, algumas ainda como naqueles áureos tempos, outras completamente modificadas. Natal já se esqueceu do apito estridente que despertava os operários. Chamando-os para o trabalho, às 5,20 da manhã e, ás 5,20 da tarde, anunciava, para toda a cidade, o término de mais uma jornada. Naqueles vastos salões, não se ouve mais o bater compassado dos teares nem o sussurro dos fusos, naquela envolvente sinfonia de progresso. Resta apenas, ereta, rija, como um braço de gigante crispado para os céus, numa atitude de protesto, imóvel e fria, a grande chaminé, com a evocativa data de 1888 gravada em um de seus flancos. Como as pirâmides do Egito, ela é, no céu escampo e limpo de nossa cidade, a recordação de uma época de prosperidade crescente, de uma era Inesquecível de trabalho construtivo, que vai, entretanto dia a dia se perdendo nas sombras de um passado cheio de glorias.

Paralelamente à sua atividade industrial, realizava Juvino Barreto em sua terra, como verdadeiro discípulo de São Vicente de Paulo, um grande apostolado. Nas obras de caridade, nas calamidades que sombrearam de tristeza a vida da pacata província, estava ele, o grande industrial, sempre na primeira linha, auxiliando, orientando, trabalhando, com aquele desprendimento, com aquela dedicação de verdadeiro "dileto dos pobres", como o chamou o inesquecível poeta Segundo Wanderley.

Naquele mesmo ano de 1888, a 23 de Setembro, fundava Juvino Barreto, com Felix Mascarenhas e alguns outros, cujos nomes não consegui descobrir nos arquivos e notas que rebusquei, a "Sociedade de São Vicente de Paulo", de historia emocionante e simples, toda vivida sob os tetos humildes de pa- lhoças e casebres, plantados nas encostas dos morros, nos areais distantes e no descampado dos tabuleiros.

Sinfrônio Barreto, irmão de Juvino Barreto, cujo nome e cuja fisionomia risonha e boníssima evoco neste momento, conhecido que foi por mui- tos dos presentes, teve entre os Vicentinos, em nossa terra, uma atuação verdadeiramente edificante, de desdobrada e constante abnegação, fiel, como seu irmão, á doutrina e aos ensinamentos de seu pai.

Durante a revolta da Armada, em 1892, organizou Juvino Barreto, em Natal, o "Batalhão Silva Jardim", tendo mais de uma vez se oferecido ao Marechal Floriano Peixoto, para combater ao lado das forças legais, fiel á tradição de seus antepassados e ao elevado sentimento de sadio patriotismo que era uma das características marcantes do seu caráter sem jaca.

Já no leito de morte, Juvino Barreto chamou a sua esposa para um último pedido: "Que, de sua herança, reservasse dez contos de réis para fundação de uma casa para educação de meninos; dez contos de réis para uma casa para educação de meninas, e dez contos para a fundação de um hospital".

E, ás dez horas do dia nove de abril de 1901, no salão de frente do primeiro andar desta casa que ora nos abriga, deixou de pulsar aquele grande coração. O lutuoso acontecimento abalou profundamente a pacata Natal de 53 anos passados. O comercio cerrou suas portas. Nos edifícios públicos, as bandeiras foram hasteadas em funeral. Imensa multidão, vinda dos mais longínquos lugares, cercou a casa do grande morto, na ânsia de vê-lo mais uma vez, de prestar-lhe a sua última e sentida homenagem.

O enterro realizou-se no dia seguinte, saindo o féretro às sete horas da manha, para a próxima estação da estrada de ferro, donde foi transportado, em carro fúnebre, para o cemitério do Alecrim. Os enterros importantes, naquela época, eram feitos a trem. Os vagões que formavam a longa composição estavam repletos. Ao longo dos trilhos até a parada do "Oitizeiro", o povo, em silencio, com os olhos marejados de lagrimas, ajoelhava-se à sua passagem.

No cemitério, a multidão era imensa. Uma verdadeira parada de dor. A' borda do túmulo, falaram Pedro Avelino e o inolvidável médico e poeta Segundo Wanderley que, entre outras coisas belas, disse o seguinte: "Faiem neste momento por mim os gemidos aflitivos que convulsionam os seios inconsoláveis dos desherdados da sorte; falem por mim os soluços emocionantes que se desprendem dos lábios sequiosos da inocência, do coração palpitante da castidade; falem por mim estas manifestações eloquentes de todas as classes no requinte espontâneo de sua admiração e de seu respeito; falem por mim os protestos altísonantes do povo Rio Grandense na eclosão indefinível do seu sentimentalismo, no fervor inefável de sua idolatria; fale por mim, em suma, esta caudal enorme, esta parada de luto, esta apoteose de lágrimas onde as consciências genuflexas levantam n'um extasis sobrenatural o estandarte sublime da saudade e da gratidão".

"O homem exulta porque lhe apraz, mas só chora porque sente. O riso é muitas vezes uma mascara, mas o pranto é sempre uma revelação No primeiro ha um músculo que se contrai, no segundo ha uma alma que se dilui'. E' por isso que Juvino Barreto torna-se o objetivo da mais expressiva, da mais palpável, da mais indefectível das glorificações, a glorificação da dor".

Depois de sua morte, procurou Ignez Barreto dar fiel cumprimento àquele pedido de Jseu esposo querido, feito quando o mesmo já sentia, com a resignação e o estoicismo de um santo, a aproximação de seu último momento. E dos entendimentos com D. Aurélio de Miranda Henriques, então Bispo da Paraíba, sob cuja jurisdição eclesiástica estava o Rio Grande do Norte, conseguia a fundação, em Natal, do Colégio Diocesano "Santo António". Para esse fim, vieram para Natal os padres João Irineu Jofily e Moisés Coelho, que fundaram aquela casa de educação. Além dos dez contos deixados pelo seu marido, Ignez Barreto forneceu ainda, de sua conta, grande parte do mobiliário para a fundação daquele colégio, por onde passaram quasi todas as nossas gerações, de 1903 para cá, e é hoje o suntuoso Colégio Santo António dos Irmãos Maristas. Padre Jofily faleceu como Arcebispo resignatario do Pará e titular de Anasarta, e Moisés Coelho é o atual Arcebispo da Paraíba.

Em seguida, com o seu grande prestigio junto à ordem de Santa Dorotnéa, obtém Ignez Barreto a fundação do Colégio da Imaculada Conceição, no antigo prédio do Liceu Industrial.

Fundou-o a superiora Madre Danielli, tendo Ignez Barreto muito contribuído para efetivação dessa grande obra, além do auxilio deixado por Juvino Barreto.

A Revma. Madre Irene Danielli, como testemunho da gratidão pelo muito que fizera material e moralmente para a fundação daquele estabelecimento de educação de meninas, e que tem tido, incontestavelmente, uma marcante e benéfica atuação na formação moral, espiritual, literária e artística das moças de nossa terra, desde o dia abençoado de sua inauguração, ofereceu a Ignez Barreto dois luxuosos volumes da Bíblia Sagrada, com esta expressiva dedicatória' “A' Exma. Snra. Da. Ignez Barreto, ofereço esta lembrança, como sinal de verdadeira estima. Cada pagina deste livro precioso, cada expressão desta religiosa narração, encontrará um echo feliz em sua inteligência desejosa da verdade, em seu espirito cioso do bem, em seu coração generosamente dedicado á virtude. Natal, 22 de Setembro de 1905. (a) Irene Danielli, Religiosa de Santa Dorothéa."

Esses preciosos volumes foram, depois de sua morte, oferecidos pela Família Barreto ao Revmo. Padre Monte, seu confessor e diretor espiritual, nos últimos anos de sua vida. Hoje, pertencem-me, oferecidos que me foram pela ilustre família do nosso querido e inesquecível Padre Monte.

Os dez contos de réis restantes foram empregados quando o seu irmão Alberto Maranhão governara o nosso Estado, pela primeira vez.

Comunicara-lhe Ignez Barreto Q pedido que lhe fizera o esposo. E empenhando-se junto ao seu irmão mais moço para o seu cumprimento, entregou-lhe a referida importância. E Alberto Maranhão, com o seu grande tino de administrador, aliás o maior administrador de nosso Estado, sob todos os aspectos e em todos os tempos, juntou àquela importância mais algum recurso do próprio Estado, e comprou a casa do Monte Petrópolis, antiga residência que fora sua e onde fundou o Hospital de Caridade "Juvino Barreto". Este nome, porém, foi,- nos últimos anos mudado para "Miguel Couto". Mas o nome de Juvino Barreto para o Hospital de Caridade de Natal não nasceu de nenhum conchavo de família. Representava um ato de inteira justiça. Não só porque Juvino Barreto muito merecia aquela homenagem, pelo inigualável valor de sua obra filantrópica em nossa terra, como também porque fora ele quem primeiro sonhara com a fundação daquela casa e concorrera financeiramente para a sua instalação. Louvável, pois, seria todo e qualquer movimento para corrigir aquela injustiça a um dos vultos mais proeminentes de nossa ferrei, .fazendo voltar ao nosso hospital a sua primitiva denominação de "Juvino Barreto".

A vida de Ignez Barreto, durante a sua viuvez, decorreu na paz de seu lar, educando os filhos e netos, trabalhando em suas obras de assistência social, amparando e protegendo os necessitados, resignada e heróica ante as vicissitudes da vida, mas sempre a mesma, inflexível, sem se afastar um milímetro siquer de sua linha de conduta, de tradicional mãe brasileira.

Não se limitou Ignez Barreto ao cumprimento do pedido de seu esposo, para a fundação dessas três casas que constituem hoje um verdadeiro orgulho para a nossa terra: Colégio Santo António, Colégio da Imaculada Conceição e Hospital Juvino Barreto.

Em 15 de agosto de 1905 fundou a "Associação das Damas de Caridade", á qual presidiu com invulgar dedicação, durante toda a sua vida, e cuja primeira diretoria era a seguinte: Presidente, Ignez Barreto; vice-presidente, Da. Raimunda Wanderley, viuva do poeta Segundo Wanderley e presente a esta solenidade; 1a secretária, D. Maria Isabel Maranhão; 2° secretaria, Da. Maria Eugenia Teixeira de Araújo, minha tia pelo lado materno e minha mãe de criação; tesoureira, Da. Maria Coelho, e enfermeira, Da. Maria Emerenciano. A instalação das "Damas de Caridade" foi ás sete horas da manhã, no Colégio da Imaculada Conceição, sendo seu diretor espiritual o Padre Irineu Jofily.

No dia imediato, 16 de agosto de 1905, fundou ainda Ignez Barreto a escola "Maria Auxiliadora", para educação das meninas pobres de nossa velha Natal. As professoras eram suas diletas filhas Maria Latina, Sara e Rachel, suas sobrinhas Bertha Severo, Leonor Maranhão e Isabel Barreto e mais as senhorinhas Francisquinha Wanderley, Aurora Seabra, Adalgiza Pereira Simões, Maric. Eugenia, Maria Augusta e Maria Sebastiana Araújo. Diariamente era servido um suculento lanche às alunas a quem não faltavam também os livros, cadernos, etc., para os seus estudos. E igualmente as vestes brancas, brancas como a sua bondade, fornecia a fundadora da Escola àquelas inocentes pobrezinhas, para o dia mais feliz da vida, o dia de sua Primeira Comunhão. Na véspera daquele grande dia, tendo-se em consideração que muitas moravam distante e não havia meios de transporte, as néo-co-mungantes vinham todas para esta mesma casa, dormiam sob este mesmo teto acolhedor e generoso. No dia. seguinte, depois do Banquete Eucarístico, na Capelinha de S. José, que recebia ornamentação especial para a tocante cerimonia, voltavam todas alegres e sorridentes para a mansão de sua protetora, que as recebia de braços abertos) Era-lhes então servido magnifico café, numa longa mesa toda enfeitada de flores pelas mãos também abençoadas das dedicadas professoras.

Numa dessas ocasiões, lembro-me perfeitamente, a grande sala regorgitava de filhos, irmãos, sobrinhos e pessoas amigas, que também vinham participar da alegria, da santa alegria daquelas meninas que haviam ha pouco recebido Jesus em seus corações inocentes.

Depois do café, uma menina, defeituosa de uma perna, interpretando os sentimentos de suas coleguinhas, leu este breve discurso: "Exma. sra. Da. Ignez — Mais que justo é o motivo que faz reunir em torno de V. Excia. as pobrezinhas da, aula "Maria Auxiliadora".Cumprimentando-vos respeitosamente, mostramos assim o reconhecimen- to e a gratidão de que se acham possuídos os nossos corações. A' nossa carinhosa Mãe Maria Auxiliadora dirigimos hoje as nossas preces, afim de que ela derrame sobre V. Excia. as mais copiosas graças. Viva Maria Auxiliadora, Viva Dona Ignez, Viva 22 de setembro".

Era dia de aniversario da homenageada. Ignez Barreto, porém, nada respondeu. Ficou muda e séria. A viva emoção embargava-lhe a voz. Nos seus olhos expressivos e claros, lia-se perfeitamente toda a alegria que lhe ia n'alma pelo bem que fizera. E, adiantando-se, abraçou demoradamente a pobrezinha, beijando-a com meiguice, com essa meiguice com que só as mães sabem beijar os filhos queridos. Essa menina ainda vive. Hoje, já envelhecida, viuva, cheia de filhos e netos, mora nos morros de Areia Preta. Ha dias, falando-me daqueles bons Cmpos, o tempo melhor de toda a sua vida, como dizia, repetiu-me com os olhos cheios de lagrimas, aquelas mesmas palavras pronunciadas há 44 anos atráz e que guarda em sua memória e seu coração, como a ternura de uma prece. Chama-se Joana Bezerra e, por isso, eu a convidei para assistir também a esta homenagem á sua maior benfeitora.

A casa onde funcionava a escola "Maria Auxiliadora" ficava neste terreno, na subida da rua Juvino Barreto, ao lado, onde começa a rua S. Thomé. Nela morei algum tempo e nela nasceu o meu filho Augusto. Não existe mais; evoco-a, entretanto, com saudades, pêlos dias tranqüilos e felizes nela vividos.

Em 1910, sua filha, Maria Latina, figura principal na direçao da escola, antes de entrar para a ordem das Dorothéas, transferiu a escola "Maria Auxiliadora" para o Colégio da Imaculada Conceição. E doou a importância com que foi construído, por seu irmão Pio Barreto, o prédio onde ainda hoje funciona, ao lado do mesmo colégio, na Avenida Deodoro.

E, como ha 49 anos, ainda hoje as meninas pobres do Natal recebem instrução gratuita na mesma Escola "Maria Auxiliadora", incontestavelmente uma das grandes realizações da doadora desta Casa.

Como todo Maranhão, Ignez Barreto gostava da boa música, das boas leituras. Em sua sala de visitas tinha um belo piano de cauda, marca Pleyel, oferta de seu esposo, quando moça, e no qual interpretava, com arte e segurança, os seus compositores prediletos, os grandes mestres da harmonia no mundo, ainda insubstituíveis: Beethoven, Mozart e Chopin.

Naquela mesma sala ampla, seu irmão Amaro Barreto, diretor do Instituto Nacional de Musica do Rio de Janeiro, dava os seus concertos familiares, para deleite de sua irmã, ás vezes acompanhado ao violino pelo seu irmão Joaquim Scipião, E as tertúlias literárias e musicais que ali se realizaram tiveram grande repercussão na época. E, permitam-me a revelação, muitas vezes o seu dileto irmão Alberto Maranhão entoava as lindas canções napolitanas, e em tempos passados o grande Pedro Velho, organizador do Estado republicano, solfejava,acompanhando-se com estilo melódico, peculiar ao seu gosto requintado, as velhas modinhas brasileiras que aprendera quando estudava medicina na Baía.

Depois da morte de seu marido, Ignez Barreto nunca mais tocou

Como nos versos de Júlio Salusse, em que: "Um dia um cisne morrerá, por certo, e quando chegue esse momento incerto, no lago, onde talvez a agua se tisne, que o cisne vivo, cheio de saudade, nunca mais cante nem sozinho nade, nem nade nunca ao lado de outro cisne",

assim, também, nunca mais vibraram,, tocadas por aquelas mãos abençoadas, as cordas melodiosas do velho piano. Para Ignez Barreto, como me escrevia ha dias o seu filho, Dr. Sérgio Barreto, atualmente no Rio de Janeiro, ao fornecer-me algumas notas muito interessantes para esta palestra, depois da morte de seu esposo seu piano emudeceu para a música, como o seu coração se fechara para as alegrias da vida.

As mães brasileiras, entregues à sua missão sagrada de educar, no recesso do lar, os filhos, e formar-lhes o carater, especialmente das meninas, ás mães brasileiras, todas as mães, enfim, recebendo o encargo, na viuvez, de toda a responsabilidade sobre os filhos, preparando-os para as lutas da vida, não têm e não podem ter historia a historia exterior, visível aos olhos de jornalistas e etnógrafos, a história das mães, das nossas mães, é um longo e silencioso caminho de sacrifícios, de oração e de renúncia.

Viúva, Ignez Barreto, se já pouco freqüentava os salões sociais da velha Natal de seu tempo, renunciou inteiramente às festas ruidosas, às reuniões oficiais e ás toaletes da moda. Nunca abandonou o seu vestido preto, decente e sóbrio, que lhe dava uma nota de distinção e de fidalguia, toucada pelo seu cabelo de prata, de inesquecível imagem de veneração.

Até a hora de sua morte serena, às 3 horas da tarde de cinco de agosto de 1932, vítima do mal que vinha aos poucos minando o seu organismo, sem diminuir-lhe a resistência moral e a sua coragem estóica, Ignez Barreto pensou unicamente em completar o desejo o pedido do seu marido, no momento em que se separaram na terra.

Agora, que ela sabia próxima a hora em que se encontraria com o único amor de sua vida, deseja cumprir, ampliando-o, o ato generoso com que ele se despedira do mundo.

A figura iluminada de Dom Bosco, com seu sorriso de irresistível bondade, povoou os últimos anos da existência de Ignez Barreto, vivendo em seu coração e ensinando-lhe o caminho para a satisfação ideal de sua caridade.

Entregar aos filhos de Dom Bosco a parte vultosa do seu patrimônio, a casa que fora residência de sua felicidade, cheia das recordações melodiosas, das vozes dos filhos, ecoante dos passos do marido, entregá-la para que fosse, nas mãos Salesianas, a casa, o abrigo, a acolhida, a criação espiritual das crianças, o ninho formador da inteligência católica em serviço de Deus e do Brasil.

Queria Ignez Barreto que o solar do seu marido tivesse outra família, bem maior e eterna, reunida e guiada pela luz sobrenatural e divina de Maria Auxiliadora.

Esta a historia da doação desta Casa. Não mais os filhos, sobrinhos e netos de Juvino e Ignez Barreto correm por estas alamedas, mas uma população incessantemente renovada manterá para sempre a tradição do lar católico da grande doadora, no exemplo vivo de sua bondade e de seu desinteresse.

Não é possível dominar, ocultar a emoção com que vos falo, porque nestes salões, nestas escadas e corredores, neste parque presidido pelas palmeiras imperiais, a minha meninice deixou a maior parte da irresponsabilidade ruidosa de seus sonhos.

Também por aqui parte de minha vida recebeu o encanto da companhia familiar de meus queridos tios, donos da mansão. Evoco a figura inesquecível de meu Pai, a graça de sua palavra r "cortando os assuntos, a alegria dionisíaca de sua natureza afetuosa e expansiva. E os demais tios e primos — tio Pedro Velho, meu tutor na hora cruel da orfandade; Fabrício Maranhão, meu padrinho; Tio Amaro; Tia Sinhá; Tia Amélia, a única irmã sobrevivente; Tio Adelino; Tia Mariquinhas; Alberto Maranhão; Joaquim Scipião; Tia Aurinha; Tia Militina, a minha madrinha; o bando gárrulo, dos primos, todo esse conjunto disperso ou desaparecido na morte, volta a viver e a passar por este mesmo ambiente familiar, clareado pela ternura da saudade.

Neste momento, nesta festa de homenagem profunda e grata, sinto que a presidência visível e simbólica pertence ao casal, imóvel, aqui, nas molduras de sua representação fotográfica.

Sentimos sua presença e o santo jubilo que têm, no céu, pelo destino de seu lar, tornado eterno no milagre da assistência Salesiana.

Meus queridos tios! Toda a emoção irreprimível perturba a clareza de uma evocação às vossas existências modelares!

Temo que a voz do vosso sobrinho, da criança inquieta e curiosa, conhecida e amada pela vossa bondade, não tenha feito falar o seu coração, como desejava. E que em todo o seu desejo de solidariedade, na homenagem tão justa ás vossas memórias, possa ir também o assalto do elogio, contudo tão sincero, ao recato de vossa modéstia, trazendo à luz da notoriedade, pela evocação comovida, os atos que praticastes no silencio, no recolhimento e no mistério de vossas grandes almas dedicadas a Deus!

Autor: Sérgio Severo 

 

 
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