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Por que ruiu a ponte de Macaiba?

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A imprensa local noticiou há dias, o desabamento da ponte de Macaíba, sobre o rio Jundiaí, afluente do Potengi, fato esse ocorrido em 28 de junho findo às 9 horas da manhã.

A velha ponte foi construída por meu pai, no ano de 1904, quando as únicas viaturas daquele tempo, eram, apenas, carroças e carros de boi.

Edificada sobre a rocha, com cinco arcos em forma de abóboda, que davam acesso a correnteza das águas provocadas pelas enchentes do rio, não poderia ruir desastrosamente.

As duas partes principais de uma ponte, são: a infraestrutura com os elementos de apoio, como sejam – fundamentos, pilares, contrafortes etc., e a superestrutura com a armadura e o leito para o trafego em geral. Tudo isso foi executado com a segurança, o que se prova pela solidez e resistência a muitas enchentes, como as de 1905, 1924 e de 1940, quando as águas subiram além de um metro do seu tabuleiro, mostrando-se orgulhosa de si mesma, porque a tudo desafiou.


Cel.  Aureliano Medeiros


A super estrutura, da qual me referi acima, ofereceu, também, segurança inacreditável à passagem de engenhos de guerra americanos, uns até pesando cerca de vinte toneladas. Mas, aquilo foi feito para carroças, uma vez que naqueles bons tempos não havia veículos de tonelagens e sim de alguns quilos. Isto, que acabo de relatar, comprova a sua resistência material, a qual excedeu ao limite de toneladas, notando-se que foi construída na época dos luxuosos carros de passeios tirados a cavalo.

Terminada a sua sólida construção, meu pai, prevendo enormes cheias, edificou na parte sul, dois possantes bueiros sob a rua, as quais serviam de seguros escoadouros que recebiam fortes correntezas de água de um dos cursos do rio Jundiaí e despejavam no leito da maré, pelo lado onde foi construído o parque governador José Varela.

Devemos observar, que a ponte, hoje, em ruína, foi construída durante o fluxo e refluxo das marés, ao passo que muitas outras são edificadas sobre o leito dos rios, em época de estiagens, cujo trabalho é menos penoso e muito mais fácil.

A ponte ruiu, não pela sua estrutura antiga, mas, pela reforma que sofreu ultimamente, quando o honestíssimo e operoso Prefeito – Luis Cúrcio Marinho a formoseou. Portanto, não tratou de reforçá-la e sim de revestimento, uma vez que ela não necessitava de fortificações, porque foi edificada sobre a rocha viva, que resiste a todos os temporais desfeitos, juntamente com a força de volume ocasionada pela correnteza das águas do Jundiaí, devastando tudo, menos o fundamento que é a base essencial, a fim de resistir o grosso das águas desencadeadas a torto e a direito.

Ela ruiu, sim, porque o seu novo parapeito não era como o primitivo, que dava franca passagem às águas desnorteadas, sendo remodelado de uma maneira diferente, trancado de ponta a ponta, prestes a dificultar maior resistência à sua base que jamais poderia por si própria sustentar o impulso violento de águas revoltadas, até que cedeu e caiu vencida por culpa alheia.

Ela se desmoronou, porque os primitivos bueiros que recebiam as águas foram obstruídos, a fim de que no seu escoamento fosse construído, para embelezamento da cidade, o Parque Governador José Varela, que muito sofreu com as enxurradas dos últimos dias.

Tivesse ela, a velha ponte, a sua feição antiga com os seus bueiros funcionando para ajuda da correnteza, estaria ainda, firme como um penedo, desafiando os elementos desencadeados, resistindo como resistiu por longos anos, as pesadas enchentes do rio Jundiaí, com o grosso volume de suas águas encapeladas.

O que se observa em tudo isso, é que a construção de uma ponte, deve corresponder às seguintes condições: base sólida para o seu apoio até o limite das prováveis escavações produzidas pela intensidade furiosa das águas e direções eficientes ao escoamento livre e desembaraçado. E, se ela resistiu aos 47 anos de prova eficaz, foi porque o trabalho de engenharia prática, demonstrou segurança absoluta e técnica em sua construção.

A velha ponte de Macaíba, cuja fotografia foi tirada por mim, em fevereiro deste ano, para tristeza de muitos, ficará caída por longo tempo sobre as águas que se revoltaram, prejudicando tudo e a todos. Ficará como está, sim, porque os novos potentados querem outra ponte em local diferente, prejudicando o comercio e ao povo da terra de Augusto Severo e de Auta de Souza.

Aureliano Medeiros Filho
Revista Bando
Diário de Natal de 08-07-1951
Por que ruiu a ponte de Macaíba?
 
 Natal/RN - Brasil,