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Ontem hospital do Monte, hoje hospital Miguel Couto

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TARCÍSIO MEDEIROS

 


Trabalho publicado em "A República de 10 e 11
do mês de setembro de 1959, como colaboração do autor
por ocasião do cinquentenário do "Hospital Miguel Couto"

 

Transcorre, no dia 12 de setembro deste ano, o cinquentenário de um estabelecimento hospitalar de nossa capital. Os de hoje, conhecem-mi com o nome de "Hospital Miguel Couto"; os de ontem, de "Hospital Juvino Barreto"; os maiores de 60 anos, como o "Hospital do Monte". De' qualquer forma, se, de um lado, isto reflete uma maneira pessoal (Ir guardar a tradição das coisas de 'nossa terra; de outro, representa nas sucessivas etapas da vida deste estabelecimento de assistência médica.

Na oportunidade, tenho incontida vontade de, usando as reminiscências dos meus familiares que viram surgir a Instituição, contar, somente, algo que sirva de subsidio à sua história; mas, penso que para tanto será melhor, da pesquisa paciente do documento certo, confrontar os fatos e tirar conclusões lógicas, dando-me por feliz se isto concorrer, de algum modo, para colaborar nas justas homenagens desse dia.

Onde foi o Quartel da Polícia Militar, na antiga rua Presidente Passos, prédio, hoje ocupado pela Casa do Estudante, ai, no ano de 1892, funcionava o "Hospital de Caridade". Falo a partir daquele ano, em razão da lei número 14, do mês de junho, do Governo do dr. Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, a qual criando a Repartição de Higiene Pública, com sede nesta cidade, determinou seu funcionamento no edifício do mesmo hospital, cuja diretoria ficava a cargo do Inspetor de Higiene. No artigo 14, confirmava a mencionada Lei: "É mantido o atual Hospital de Caridade, ficando sua direção e serviço clínico a cargo da Inspetoria de Higiene".

Entretanto no anexo tabela -B -, do pessoal do Hospital de Caridade e respectivos vencimentos, consta um Médico Diretor e um Médico ajudante, sem ordenado e com as gratificações da Tabela -A, esta correspondente ao quadro de funcionários da Inspetoria de Higiene, na qual o Inspetor tinha de ordenado 2.400$000, por ano, gratificação de 1.200$000 e o ajudante 1.000$000 e 1.000$000, respectivamente. Assim, não há dúvida, o Inspetor de Higiene e seu ajudante, eram os mesmos Médicos — Diretor e ajudante do Hospital de Caridade.

No artigo 22, dizia, ainda o texto legal: — "O Lazareto da Piedade ficará sendo uma dependência do Hospital de Caridade"... E que dependência!... Era, isto sim, um amontoado de portadores de moléstias infecto-contagiosas, senão dos contaminados pela temível bexiga, isolados na distante "estrada velha dos Guarapes", depois chamado Isolamento da Piedade, Hospício de Alienados, marco inicial da psiquiatria potiguar.

O Hospital Juvino Barreto, como ele, sairia dos fundamentos do próprio Hospital de Caridade, desta Lei, como consequência imprescindível da cidade que crescia, na razão direta das mazelas de sua população. Como o São João de Deus, para tuberculosos. Colônia São Francisco de Assis, para leprosos todos os outros, também, como prova da especialização médica, da terapêutica moderna, da evolução da ciência.

Dizia meu pai, Cândido Henrique de Medeiros, falecido em 1942, e o confirmam meus irmãos maiores de cinquenta e oito anos de idade, que a reforma da "mansão" da família Alberto Maranhão, no "Monte", em Petrópolis, iniciada em princípios de 1905, esteve a cargo do Sr. Teodósio Paiva, Diretor do Almoxarifado Geral do Estado. O velho casarão, segundo o depoimento do Sr. Sérgio Severo de Albuquerque Maranhão, ao qual me reporto e dou fé, foi comprado pelo Estado e pago com o emprego de parte da quantia de lO.OOO$OOO deixada por Juvino Barreto para empreendimentos de caridade, sem embargo de outros e constantes auxílios fornecidos por Dona Inês Barreto, para adaptação do prédio.

Do que se depreende da parte oficial de "A República" de 20-8-1909, o Sr. Pio Barreto foi o empreiteiro, para construção de uma sala de operação e mais quatro outras", pelo preço de 1.000$000.

Meu pai desde 1907, tendo vindo com a família de Pernambuco para Natal, a chamado do meu avô Desembargador Lemos, embora empregado na Comissão de Melhoramentos do Porto, foi convidado, pelo então Governador Alberto Maranhão, para ajudar à direção de tais obras, em face da sua experiência adquirida no serviço da Santa Casa, em Recife, e pela confiança que lhe depositava, "por ser genro de quem era"... Antes da conclusão definitiva dos trabalhos, dentro do crédito de confiança dado pelo Governador, viajou ao Recife, com "carta branca", para trazer, dali irmãs religiosas, da Ordem que julgasse mais conveniente para o serviço de administração do novo Hospital. E preferiu a Ordem de Sant’Ana.

Cinco (5), foram as Irmãs dessa Ordem que chegaram pela primeira vez no Rio Grande do Norte, para tomarem conta de um serviço de caridade pública. No dia 14 de julho de 1909, conforme noticiou o "Diário do Natal" do dia 17 do mesmo mês e ano, desembarcaram elasdo vapor "ACRE", ficando abrigadas no prédio em remodelação, sem conforto, estoicamente suportando a situação de emergência.

No dia imediato, 15 do mês, por ato do Governador Alberto Maranhão, eram elas, DD. Cosma Campani, Rosa Sampaio, Helena Maria de Menezes, Renoleta Mesati e Olindina Garavaghia, "nomeadas para se encarregarem do serviço de enfermarias do Hospital de Caridade com gratificação total de duzentos mil réis (200$000), até que oportunamente contrate o Governo, com as mesmas religiosas, o serviço efetivo daquele estabelecimento".

Como resultado imediato, deste ato governamental, no dia 10 do mês seguinte de agosto, à presença do Governador do Estado, doutor Alberto Maranhão, compareceu Soror ANNA ANCILLA BRICCOLLI e declarou que vinha, na qualidade de representante da Geral da Ordem de Sant’Ana, residente em Roma, Soror Anna Benedetta Carrega, contratar com o Governo do Estado o serviço de administração interna das enfermarias do Hospital de Caridade, mediante as cláusulas seguintes.. Dentre elas, ficou ajustado o número de cinco irmãs, número que poderia ser aumentado em caso de necessidade do serviço; que a administração interna seria feita por INTERMÉDIO DA INSPETORIA DE HIGIENE PÚBLICA; e que o Estado pagaria à Irmã Regente, como gratificação pêlos serviços prestados pelas Irmãs contratadas, a quantia mensal de 350$000.

Esta Irmã era Provincial da Ordem no Brasil, e veio apenas, para discutir, aceitar e assinar o contrato, retornando ao Recife, logo após. Não consta que estivesse aqui por ocasião da instalação do novo Hospital. A figura da Irmã Cosma Campani, esta sim, avulta na lembrança de todos, como a Diretora ou Irmã Regente, sustentando o encargo por muitos anos, sendo aquela que mais deixou traços profundos do seu espírito organizador. Desde sua chegada, em Julho de 1909, o expediente trocado entre ela e o Governo e o Diretor do Almoxarifado Geral, é farto na parte Oficial de "A República" da época, mostrando seu labor insano, fatigante de providências reiteradas, tudo prevendo para a instalação da nova casa de saúde.

À pressa da Irmã ANNA ANCILLA BRICCOLLI em voltar aos deveres do seu provincialato, em Recife, determinou um fato singular. O contrato foi firmado antes do ato governamental que o autorizaria vez que o Decreto n. 205, que reorganizou o Hospital de Caridade e criou os lugares de médico da Polícia e do Batalhão de Segurança, somente saiu no dia 21 de agosto de 1909, e na parte que interessa, mais de perto ao caso, assim dispunha:

"O Governador do Estado do Rio Grande do Norte, autorizado pelo art. 7.°, § 3.°, da Lei n. 268, de 1.° de dezembro do ano passado,

DECRETA:

Art. 3.° — O serviço do Hospital de Caridade será feito mediante contrato, por irmãs da Ordem das Filhas de Sant’Ana, a cujo cargo ficará a administração interna do estabelecimento e direção das respectivas, enfermarias.

§ único — A irmã regente do serviço do Hospital se comunicará oficialmente com o Governador do Estado por intermédio da Inspetoria de Higiene, repartição a que fica subordinado o estabelecimento.

Art. 4.° — O serviço médico-cirúrgico do Hospital de Caridade será feito por profissional nomeado pelo Governador com a gratificação mensal de 300$000.

§ único — O médico do Hospital dará as visitas diárias ao estabelecimento, passando todo o receituário interno e praticando as intervenções cirúrgicas necessárias, podendo requisitar do Governador o concurso de outros colegas, sempre que assim o exigirem a natureza e importância das operações.

Art. 5.° — Haverá no estabelecimento uma farmácia que ficará sob imediata fiscalização do médico do Hospital, a cargo de uma das irmãs contratadas, previamente examinada por uma junta composta de médicos da Polícia do Batalhão de Segurança e do Hospital e de um farmacêutico nomeado pelo Governador sob a presidência do Inspetor de Higiene.

Art. 8.° — Os empregados do Hospital de Caridade, nomeados pelo Governador, que não forem aproveitados na presente reorganização ou adidos a outra repartição do Estado, ficarão em disponibilidade com os respectivos ordenados.

Art. 9.° — O Inspetor de Higiene fará a revisão do atual regulamento e outras disposições em vigor, referentes aos serviços subordinados à sua repartição, submetendo-a ao exame e aprovação do Governador."

Dir-se-ia, da leitura do Decreto, que tudo se restringiu a uma reforma do Hospital de Caridade, sob à direção das Irmãs de Sant’Ana. Entretanto, é evidente do art. 8.° que a extinção da velha casa estava prevista, desde então, com a criação do "Juvino Barreto" estabelecida no Decreto n.° 206, de 31 de agosto de 1909, que determinou:

"Estabelece a tabela do pessoal interno do Hospital de Caridade Juvino Barreto e dá outras providências.

"O Governador do Estado do Rio Grande do Norte, EM ADITAMENTO ao Decreto n.° 205 de 21 do ocorrente, que reorganizou o "Hospital de Caridade":

DECRETA:

Art. 1.° — O pessoal interno do estabelecimento, que deverá servir sob às ordens da regente contratada, nos termos do artigo 3.° do Decreto n.° 205, de 21 deste mês e da cláusula XVI do contrato de 10 do corrente, é o constante da tabela anexa.

Art. 2.° — Haverá no Hospital aposentos especiais para o recebimento de pensionistas que pagarão, os de 1ª classe, — 10$000 diários, e os de 2a. 6$000.

§ 1º — Os pensionistas terão direito à medicação magistral, correndo por sua conta, toda a medicação oficinal.

§ 2° — As operações extraordinárias a que se tiverem de submeter os pensionistas serão feitas mediante ajuste prévio com o médico do estabelecimento, que perceberá, como gratificação extraordinária, um terço da respectiva quantia, revertendo os dois terços restantes para a caixa do Hospital.

Art. 3° — Todo receituário do Batalhão de Segurança será aviado na farmácia do Hospital e será visado pelo comandante do Batalhão e com o despacho do Governador do Estado."

Como se vê, o (primeiro Decreto tinha torça mais de ratificar os termos do contrato firmado com as Irmãs de Sant’Ana; o segundo, já estabelecia o nome do Hospital, que seria "JÜVINO BARRETO" e, implicitamente, destinava as Irmãs para nele servirem. Como anexo ao Decreto último, a Tabela dos empregados do Juvino Barreto, classificava: — l enfermeiro, com 50$000 por mês; l enfermeira, com 50$000; um cozinheiro, idem; uma lavadeira, com 20$000; um servente de Farmácia com 15$000; um empregado do motor d’água; um servente de enfermaria; um hortelão-jardineiro e um criado para compras e recados, cada um com 30$000.

Como é claro, tudo foi feito por iniciativa de Decretos do Governo. Não houve, até então, lei que disciplinasse a criação da nova Instituição, seus cargos e provimentos. Até o nome, veio por via de Decreto.

Neste particular, não nego a justeza da homenagem que se prestou ao benemérito Juvino Barreto. Mas, não devo esconder, que, extra-oficialmente, se cogitou do nome do Padre João Maria para denominação do novo hospital; chegando-se, até, a imprimir as papeletas oficiais.'Não será despropósito, acreditar-se nesta versão, porquanto, naquele tempo Natal amargurava a recente morte do santo após tolo da caridade, enquanto que Juvino Barreto morrera há, aproximadamente, nove anos. A João Maria, logo em seguida para lembrar sua abnegada vida dariam seu nome ao Orfanato das meninas desvalidas, também a cargo das mesmas Irmãs de Sant’Ana e construído na vizinhança do Hospital Juvino Barreto.

Quando tudo estava feito e já em pleno funcionamento foi que n Assembléia de então, aceitando os fatos consumados, aprovou a Lei número 280, de 29 de novembro de 1909, como se verifica:

"Aprova o decreto do Governo que reorganizou o serviço de Assistência Pública e dá outras providências.

O Governo do Estado do Rio Grande do Norte: Faço saber que o Congresso Legislativo decreta e eu sanciono a presente lei:

Art. 1.° — É aprovado o decreto do Governo do Estado que organizou o serviço de Assistência Pública com a remodelação do Hospital "Juvino Barreto", ficando o mesmo Governo autorizado a completar essa reforma com a criação de um Asilo de Mendicidade e pavilhão de Isolamento para tuberculosos.

Art. 2.° — Fica igualmente autorizado o Governo a ceder ao da união o prédio em que funcionava o antigo Hospital de Caridade para a instalação da Escola de Aprendizes Artífices, ultimamente criada nesta capital, e a entrar em acordo para a definitiva transmissão desseprédio ao patrimônio federal".

Com esta lei, oficialmente, o velho Hospital de Caridade encerrava suas portas à finalidade para que fora criado. Meses antes, porém, todo o seu material aproveitável tinha sido transportado para o Juvino Barreto, sob a zelosa vigilância do Dr. Januário Cicco, seu médico-cirurgião. Os empregados transferidos para outras Repartições, aproveitados no novo hospital, ou postos em disponibilidade.

Foi o Dr. Januário Cicco o primeiro médico do Juvino Barreto, nomeado pelo Governador ao Estado, no dia 23 de agosto de 1909, tendo assumido as funções do cargo no dia 1° de setembro seguinte. Servia, antes, como médico do Hospital de Caridade o Dr. Pedro Soares Dr. Amorim, que por ato de 23 de agosto de 1909 passara a servir como médico da Policia Militar, assim como acontecera, no dia 28 de março do referido ano, ao Enfermeiro-mór Joaquim Fernandes de Souza, que passara a adido à mesma corporação.

O ato de designação do Dr. Januário Cicco diz que fora "nomeado para o lugar de médico do Hospital de Caridade, com a gratificação e atribuições constantes do Dec. 205, de 21 do corrente (agosto), ficando-lhe marcado o prazo de 8 dias para solicitar o título e assumir o exercício".

Pelo que está dito no art. 4.°, do Decreto 205, o Dr. Januário Cicco foi nomeado médico cirurgião, com a gratificação mensal de300$000 e atribuições previstas no § único do mesmo artigo.

Assim, não foi, nem poderia ter sido o Diretor da nova Instituição, vez que estas funções eram privativas do Inspetor de Higiene, desde a vigência da Lei .n. 14 de 1892, conforme o seu artigo 14; ainda o § único do artigo 3, do decreto 205, e cláusula - IV — do contrato firmado entre as Irmãs e o Governo do Estado como tudo se constata das transcrições feitas. Em consequência também destes dispositivos legais, a própria sede da Higiene, que funcionava no velho Hospital de Caridade, deve ter passado para o Juvino Barreto, onde funcionou até a descentralização dos serviços e aquisição de prédio próprio.

Inserta na imprensa local a notícia da inauguração do Juvino Barreto, o Dr. Januário Cicco é mencionado como médico diretor da clínica, sem que houvesse referências a outros que tivessem função no mesmo estabelecimento. Ademais, para reforçar esta certeza, basta a nota de "A República", colocada na coluna "Várias", que, retificando esta notícia dada em edição anterior dizia "que o Dr. Januário Cicco será médico do Hospital com atribuições simplesmente profissionais, praticando e superintendendo o serviço médico cirúrgico e o exercício da farmácia, a cargo de uma Irmã contratada".

A ele são dados os méritos pela escolha do material técnico e instalação da "moderna" sala de operações, das estufas de assepsia e lavatórios de mãos, bem assim tudo mais destinado ao mister das operações. E assim foi, não resta dúvida.

Pelo seu esforço inicial é que tornou-se, mais tarde, o Diretor e chefe abnegado do estabelecimento. Firme, até ríspido nos bons e maus momentos, combatido e aplaudido, levou-o sob sua zelosa responsabilidade, enquanto viveu. Confundiu-se tanto com a própria instituição que viu nascer, que ninguém hoje fala do hospital sem relembrar sua figura. De lá sairia, apenas, para entrar na Eternidade.

Quanto aos empregados que serviam no Juvino Barreto, ao tempo de sua inauguração, alguns devem ter vindo do antigo Hospital de Caridade, pois o art. 8.° do Decreto n. 205, assim determinava colocando em disponibilidade, com os respectivos ordenados, os que' não fossem aproveitados.

Como referi, na tabela junta ao Decreto n. 206, estava previsto o quadro dos empregados que deveriam servir às ordens da Regente contratada. Ora, assim deve haver ocorrido, pois lhe competia fazer as designações, como se constata do seguinte expediente do Governo do Estado, transcrito em "A República" do dia 10 de setembro de 1909.

"Dia 30 de agosto — À snra. Regente do Hospital de Caridade.

"Nos termos do contrato de 10 do corrente, autorizo-vos a nomeardes para o serviço interno do Hospital de Caridade sob vossa regência o pessoal constante da tabela anexa.

Freneticamente remexi papéis, vasculhei arquivos. Nada. Não encontrei o ato tia Irmã Regente nomeando o pessoal auxiliar do Hospital. Porém, a pista está aberta para, de futuro, enquadrar neste trabalho a peça que ficou faltando.

Assim sendo, pela premência do tempo, valho-me das poucas e viventes testemunhas da época, para dizer que o primeiro enfermeiro foi o Sr. José Lucas do Nascimento, "seu" José enfermeiro, como era conhecido. Prestativo, competente e bom, ainda achava folga para exercer o mister em muitos lares de família natalense. Com o avanço da idade, aposentou-se, falecendo há alguns anos. Outro, o velho Emílio, o cozinheiro. Depois de 1916, ainda prestava serviços. Certamente, estará no rol dos desaparecidos.

Dos outros, nada sei, e lamento não deixar aqui registrados os seus nomes, tirando-os do anonimato para revelar a profícua colaboração dada por cada um em suas modestas atividades.

O dia da inauguração foi festivo. Caiu no domingo 12 de setembro. Pelas 8 horas, houve missa, celebrada pelo padre Moisés Ferreira do Nascimento, acolitada pelo jovem António Fagundes, hoje o conspícuo e querido mestre de tantas gerações.

Missa longa, com cânticos, comunhão geral, muito cheiro de rosas no altar, de velas queimadas e incenso. Meu irmão Humberto Medeiros, em jejum, melo estropiado da caminhada matinal, da rua das Laranjeiras a/o Monte, não resistiu. Caiu com uma vertigem, perdendo os sentidos. Removido em braços, foi colocado n'um quarto de primeira classe; e bastou p ar fresco do mar para reanimá-lo, mas, cronologicamente, ficou sendo o primeiro assistido da seção de pensionistas.

Depois, serviram um lauto café, e quem dele provou naquela ocasião, quanto mais açúcar botava, mais salgado ficava. Foi uma hilaridade geral, quando se descobriu o equivoco. Haviam colocado nos açucareiros sal refinado, e, quem o fez, por uma singular e feliz coincidência, não sabia que dava a provar do secular símbolo da hospitalidade.

No mais do que ocorreu, não posso e nem devo me furtar de transcrever o que relatou a edição de "A República", do dia 13 de setembro de 1909, órgão que era do partido político dominante naquela época, bem como o "Diário de Natal", do dia 14 do mesmo mês e ano, jornal da oposição, dirigido; então, pelo Dr. Augusto Leopoldo Raposo da Câmara, para que se possa bem avaliar do que o evento causou e como boliu com muita gente da outrora pacata Natal.

Dizia "A República": — "Conforme noticiamos, realizou-se, ontem, á uma hora da tarde, a inauguração do Hospital de Caridade Juvino Barreto."

"Assistiram a esse ato, entre outras pessoas, o Exmo. Dr. Alberto Maranhão, acompanhado de sua Exma. família, seu secretário e ajudante de ordens, major Joaquim Soares e capitão Joaquim Anselmo, coronel Joaquim Manoel, presidente do governo municipal, Dr. Manoel Dantas e sua gentilíssima filha, senhorita Beatriz, Dr. Calistrato Carrilho, inspetor de Higiene, Dr. Pedro Amorim, diretor do serviço médico-legal da Polícia, coronel Joaquim Etelvino, Ricardo Barreto e Montano Emerenciano, representante desta folha."

"Ao servir-se um copo de cerveja S.Excia. congratulou-se com a diretoria do estabelecimento e com o Dr. Januário Cicco, externando a excelente impressão recebida e declarando oficialmente inaugurado o Hospital de Caridade Juvino Barreto."

"Tocou, durante o ato, a banda de' música do Batalhão de Segurança".

"Terminado este, fizemos, por nossa vez, minuciosa visita às dependências do estabelecimento."

"Na sala de cirurgia, vimos a moderna mesa de operações do professor Gosset, mesa para curativos, lavabo-ambulância, mesa prateleira para pensos, um armário com o arsenal cirúrgico, contendo ferros para as necessidades de pequena e alta cirurgia, pulverizador a vapor, para desinfecção das salas, estufa para esterilização dos ferros etc."

"Penetramos, em seguida, na Secretaria e Parlatório, que serve no mesmo tempo de gabinete de consultas do médico, onde vimos o retrato co saudoso coronel Juvinc Barreto, patrono do estabelecimento, e o do Exmo. Dr. Alberto Maranhão seu fundador."

"Visitamos, depois, a capela, preparada com gosto, e provida de alfaias e ornamentos, os mais necessários."

"Percorremos ligeiramente o dormitório e rouparia, passando-nos, riu seguida, para as enfermarias Santa Inez e Santo Alberto, onde já se acham internados três mulheres e seis homens."

"Mostraram-nos também, as confortáveis dependências para pensionistas de 1ª e 2ª classes, livres de comunicações com as enfermarias, e a bem montada farmácia, sob a direção de uma das Irmãs religiosas e sob a imediata inspeção do diretor clinico."

"Cada uma das dependências do Hospital, sejam as enfermarias ou cômodos para pensionistas, tem o seu banheiro próprio e o seu water-closed."

"Percorremos, por fim, a dispensa, refeitório das irmãs, cozinha gasômetro, etc., e folgamos de externar destas colunas, a magnífica impressão gravada em nosso espírito."

E, agora, o que disse o "Diário de Natal": —

"Afinal, depois de 4 longos anos de espera, reabriu-se o Hospital de Caridade, não no seu antigo prédio da rua Presidente Passos, mas,Na casa adquirida pelo governo do Estado para um asilo de mendicidade que morreu antes de nascer.''

"Mas, seja como for, já não nos envergonhamos de não termos na Capital do Estado uma enfermaria, sequer para os desvalidos da morte. anteontem, abriu-se o Hospital de Caridade."

"A casa é pequena, os cômodos acanhados, mas, são bem arejados, estão limpos e decentemente arranjados."

"Há uma enfermaria para homens, com 15 leitos, e outra com 12 leitos para mulheres. Além dessas enfermarias, existem mais 4 quartos com 4 leitos cada um."

"Tem uma farmácia, sala de operações e acomodações para o pessoal administrativo e uma pequena capela".

"O Hospital está sob a direção da irmã D. Cosma Campani, da ordem de Sant’Ana, auxiliada por mais quatro companheiras. É seu médico o Dr. Januário Cicco."

"Ao ato da instalação, que foi muito concorrido, compareceram o governador do Estado e muitas pessoas gradas."

"A denominação do Hospital de Caridade, que sempre teve o estabelecimento mantido pêlos cofres públicos, foi substituído, agora, pelo de Hospital Juvino Barreto, em homenagem ao falecido sogro do Dr. Alberto Maranhão".

Sempre condenando a iniciativa governamental, e neste particular corroborando a tradição oral por mim aceita do nome que se pretendia dar ao novel estabelecimento, continuava o "Diário de Natal":

"Se havia um nome, nesta terra, que merecesse figurar no alto do hospital — esse nome era o do caridoso Padre João Maria. Este também nada legou ao Estado para o hospital, porém tez mais do que isto, porque arrancava o magro pão da sua boca para dividi-lo com os infelizes que tinham fome; na quadra das epidemias, quando todos fugiam dos variolosos, esse os procurava nas suas choças, dava-lhes o remédio e a tisana que ele próprio fazia à beira do fogo, à qualquer hora do dia ou da noite, quer chovesse, quer fizesse sol. Era sublime vê-lo sacrificar-se pela pobreza desvalida, desamparada!

"João Maria, sim, devia denominar-se o hospital de caridade de Natal, Juvino Barreto, não. É uma engrossa aos vivos, 'como engrossa são também aquelas inscrições que se lêem sobre as portas das enfermarias do novo hospital — Enfermaria Santo Alberto, Enfermaria Santa INEZ".

"Já temos praça Pedro Velho, monumento Pedro Velho, Vila Pedro Velho Praça Augusto Severo, Vila Augusto Severo, Avenida Augusto Lira, Avenida Alberto Maranhão, Avenida Amaro Barreto, Avenida Juvino Barreto, e agora, mais Hospital Juvino Barreto e Enfermaria Santo Alberto e Santa Inez".

"Oh! gente vaidosa!"

"Continuamos a pensar que a casa do Monte não se presta para o hospital e que a sua instalação ali deve ser provisória. O melhor local, debaixo de todos os pontos de vista, é o antigo hospital"...

Depois de instalado e inaugurado, o Juvino Barreto seguiu sua missão. Críticas ou aplausos, propósitos ou projetos, nada mais o arredaria do lugar onde ficou chantado. Dali por diante, seria o centro de irradiação da ciência médica do Estado.

Por 15 anos. Cândido Henrique de Medeiros acompanhou o seu desenvolvimento, recebendo no Tesouro a gratificação mensal das Irmãs, pagando contas, tratando do fornecimento ao Hospital, no Armazém do Sr. João Juvenal Barbosa Tinôco, e recebendo, ainda, por adiantamento, numerário para o custeio interno como vinha fazendo desde 28 de julho de 1909 . Assim noticia o ofício do Diretor do Almoxarifado Geral, ao Governo do Estado, publicado no expediente oficial de "A República", do mesmo dia..." outrossim, mandei entregar ao Sr. Cândido Henrique de Medeiros a quantia de 400$000, para a superiora das senhoras encarregadas do serviço do Hospital de Caridade".

Não foi administrador, nem teve função obrigatória. Serviu pelo prazer de ser útil, como elo entre a clausura e o mundo exterior cerrado para elas pelas rígidas regras da Ordem, o que impedia até o cumprimento pessoal de disposições contratuais com o Governo.

O contrato primitivo, de administração, com as irmãs de Sant'Ana, foi renovado mais duas vezes. Em 1914 e 1924, nos termos dos registros existentes na Secretaria do Governo Estadual, respectivamente de fls. 1-6- verso, do livro n. 6, e de fls. 50-53 verso, do livro n. 7. Aos 29 dias de setembro de 1914, foi ainda. Soror Anna Ancilia Briccoli, Geral da Ordem quem aqui esteve e, de próprio punho, pela segunda vez, assinou o termo contratual. O de 1914, foi aos 12 de dezembro e, pela Irmã geral, esteve presente e assinou, Soror Belilde Berra.

Por força de novo contrato, firmado, desta vez, no dia 30 de Junho de 1927 (pag. 61, livro 7), o Estado entregou à direção e administração do Juvino Barreto à Sociedade de Assistência Hospitalar.

Mas, as Irmãs da Ordem de Sant’Ana permaneceram no serviço do estabelecimento.

E continuaram até hoje, cinquenta anos passados.

Não importa que a evolução dos tempos tenha trazido sensíveis reformas só panorama em que foi erguido o Hospital; porque até mudaram-lhe o nome, para "Miguel Couto". Nem maior galardão possuem médicos, enfermeiros, empregados, homens e mulheres que. Passaram nele servindo, aprendendo, senão nascendo, salvando-se, morrendo.Porque suplantando todos, constantes, perenes, só continuam elas. De roupagem alva ou negra, são os vultos silenciosos e pacientes que não faltam nunca. Não importa que as represente as Superioras Cosma, Clemens, Betilde, Plácida, Petronila, Aberrarda ou Albina...

São todas elas Irmãs de Sant’Ana, sacrificando-se, eternizando-se na missão sublime das obras caridosas que criaram.

 
 Natal/RN - Brasil,