Instituto José Maciel

Depoimentos

Estatísticas do Site

Membros : 488
Conteúdo : 627
Links da Web : 6
Visualizações de Conteúdo : 843738

Pessoas Online

Nós temos 34 visitantes online

Caboverdiano Luiz Romano

E-mail Imprimir PDF

Com a idade de 88 anos faleceu em Natal-Brasil, o escritor caboverdiano Luís Romano, colaborador da revista LATITUDES, figura incontornável da história da emigração e da literatura caboverdianas. Nasceu a 6 de Outubro de 1922 numa família judaico-cristã na Ponta do Sol, ilha de Santo Antão em Cabo Verde, onde desde a infância recebeu no seio familiar a influência dos grandes escritores portugueses e franceses. Viveu o período das secas e das fomes, nos anos quarenta, entre as ilhas de Santo Antão e São Nicolau, donde extrai a essência do seu romance Famintos. Trabalhou ainda na ilha do Sal como técnico salineiro, profissão que viria a abraçar nas suas viagens no litoral africano e no Brasil.

1. DAS ORIGENS

A Vila de Ponta de Sol em Santo Antão, com o seu mar bravo na Boca de Pistola e seus marinheiros valentes, foi um centro económico e cultural importante na ilha nos fins do século XIX até meados do século XX. Com a sua pequena burguesia de origem judaico-cristã oriunda de Gibraltar (Espanha) e Tânger (Marrocos), conservou a sua tradição religiosa, testemunhando os dois cemitérios judaicos essa presença cultural e religiosa. O seu pai, Rafael Nobre de Melo, foi funcionário municipal na Ponta do Sol e, durante um certo período, foi emigrante nos Estados Unidos, mas sempre ligado à Imprensa caboverdiana, tendo sido representante do jornal A VOZ DE CABO VERDE em Massachusetts nos Estados Unidos. Luís Romano era também primo de Martinho Nobre de Melo, jurista, poeta e escritor, Embaixador de Portugal no Brasil, mas com pouca intervenção na vida política caboverdiana e que fora aluno do poeta José Lopes, na Ponta do Sol. Tanto Luís Romano como o irmão Teobaldo Virgínio, filhos da pequena burguesia letrada e possuidora de algumas terras agrícolas, são antes de tudo verdadeiros autodidactas, cujos pais, devido às crises agrícolas não possuíam meios para se fixarem São Vicente ou em Portugal onde os filhos pudessem prosseguir os seus estudos. Tem também uma irmã, escritora, a Rosa Nery Sttau Monteiro, que vive em Portugal.
A crise económica e a crise das secas que se vivia em Cabo Verde nos anos quarenta somente poderiam encontrar uma solução provisória na emigração. Mas a emigração para a América estava encerrada desde 1924. As travessias oceânicas clandestinas para atingir a América nos nossos pequenos veleiros, que insistiam em conquistar esse continente à procura de novos espaços económicos e culturais, tornaram-se raros e muitas vezes só aceitavam passageiros que lá tivessem familiares que pudessem pagar os custos da viagem. Como dizia o poeta Jorge Barbosa, a América tinha fechado as portas à nossa expansão, estabelecendo quotas de emigrantes por cada país.

2. O CAMINHO DE DAKAR


Face à impossibilidade de emigrar para a América, Luís Romano, como um antigo lançado, volta-se para a costa africana, a mais próxima, Dakar no Senegal, onde começou uma nova existência no mundo francófono, seguindo depois para o norte da África e mais tarde para a Europa. Um verdadeiro emigrante, no verdadeiro sentido do termo, homem que não escolhe profissão para assumir as suas próprias responsabilidades materiais e culturais, sempre pensando na sua participação nas transformações políticas e económicas necessárias para um outro Cabo Verde livre e independente

A emigração caboverdiana para Dakar-Senegal pouco ou nada mereceu a devida atenção dos literatos caboverdianos, tendo em conta o seu importante papel desempenhado nos anos cinquenta na vida económica, política e cultural de Cabo Verde. Foi no Senegal que nasceram os primeiros movimentos políticos para a Independência. Dali saiu o conjunto Voz de Cabo Verde que fez a maior divulgação da música caboverdiana e, no aspecto económico, foi fundamental na luta contra as crises sociais e económicas que se perpetuavam em Cabo Verde. Em Dakar chegaram a residir mais de quarenta mil caboverdianos. Com a independência do Senegal, seguida da senegalização dos quadros, muitos caboverdianos emigraram para os Estados Unidos, França e Holanda, com as respectivas famílias ou seguindo os respectivos patrões. Foi de uma grande heroicidade o trabalho dessa comunidade, cujas famílias em Cabo Verde ainda hoje estão reconhecidas.

Com o romance Famintos debaixo do braço, numa verdadeira peregrinação, Luís Romano viaja pelo interior do Senegal para sentir a África na sua total dimensão. Atravessa o rio Senegal e vai à Mauritânia, Marrocos, onde trabalha como técnico salineiro e, mais tarde, emigra para a França, onde faz estudos de engenharia mecânica e obtém a nacionalidade francesa.

A sua aventura humana leva-o à descoberta da África e da sua história totalmente excluída dos nossos manuais escolares. Em Dakar encontra uma nova geração de escritores africanos à volta da Negritude, onde já se destacavam as obras de Leophold Senghor, Aimé Césaire e Cheik Anta Diop, que mais tarde viria a publicar a sua monumental obra sobre as origens da civilização africana, intitulada Nations Nègres et Culture. Na entrevista concedida a Michel Laban (Encontros de Escritores), ele conta o seu périplo pelo norte da África : « demorei-me com os mandingas e yolofs, que me invocaram sua presença em Cabo Verde, embora subjectivamente, desde o tempo dos « Resgates ». Em Marrocos convivi com vários elementos das mais variadas etnias e assisti a cenas das Mil e uma noites que me encantaram. Também observei que alguns vestígios dessas gentes eram visíveis em Cabo Verde, mas é que faltava uma ligação elucidativa para as minhas constantes perguntas ». E assim a sua visão da identidade caboverdiana ou da história colonial portuguesa ia-se libertando até atingir o sentido da revolta contra a Fé e o Império Colonial de Portugal.

Um outro aspecto não aprofundado nas obras dos escritores foi as origens das fomes e suas consequências na sociedade caboverdiana, para as quais se deve ter em conta a dureza da repressão colonial. Na entrevista de Michel Laban (Encontro de Escritores) diz : « Foi em Marrocos que me apercebi de que meus Companheiros de Luta intelectual ou tinham de sair como eu, ou teriam de inventar grande habilidade para manter de pé a nossa Cultura, mesmo que isso fosse através de redundâncias, para não ferir a sensibilidade do Sistema. Ao mesmo tempo que estudava, decidi pôr em ordem os apontamentos trazidos de Cabo Verde, para ao menos salvar tantos anos de angústia-nacionalista e de idealismo libertário ».

Luís Romano saiu de Cabo Verde em 1945, levando escondido da polícia colonial o seu romance Famintos – (Romance de um povo), que marca uma viragem na literatura caboverdiana pela denúncia da situação colonial que engendra fomes, mortandades e emigração forçada para as Ilhas de São Tomé e Príncipe, o que na expressão de Eugénio Tavares (1868/1930) constituía um regresso à escravatura, expressão essa confirmada por intelectuais portugueses, como Jerónimo de Paiva e Alfredo Margarido.

Se o grande romancista caboverdiano Manuel Lopes escreve o romance Os Flagelados do Vento Leste, responsabilizando o harmatão ou a própria natureza pelas fomes cíclicas em Cabo Verde, acontece que Luís Romano, com a consciência política conseguida nas aventuras pelo Mundo, passa a considerar os flagelados do vento leste como vítimas duma política da fome programada pelo regime colonial português. A emigração para São Tomé e Príncipe é fortemente denunciada no romance Famintos : denuncia os recrutadores caboverdianos, os Comissários ad-hoc caboverdianos, os intelectuais, a administração pública caboverdiana e o Governo Colonial, que encontra a solução para as secas e as fomes com o caminho para as roças de café e cacau de São Tomé e Príncipe, que enriquecia os seus proprietários. Mais de metade dos emigrantes que trabalhavam nas roças eram consumidos pelas febres tropicais. Mas a crítica maior vai contra uma pequena burguesia caboverdiana que se aproveita da fome para tomar a terra dos mais necessitados, abusar das jovens raparigas, chicotear os famintos e usar a fome como arma de todas as humilhações, sem qualquer reacção das autoridades coloniais, submetidas ao poder fascista do regime de Salazar.

A diferença entre o romance Famintos de Luís Romano sobre a seca, as fomes e a emigração e os de Manuel Lopes, como Os Flagelados do Vento Leste ou Chuva Braba, não está simplesmente na abordagem dos problemas das fomes e da emigração. Não há revolta em Manuel Lopes, que responsabiliza o vente leste ou harmatão pelas secas e fomes, enquanto que Luís Romano assume o seu romance em termos políticos e que deveria levar o povo à revolta e à Independência.

No romance Famintos de Luís Romano, tanto o jovem estudante como o emigrante Campinas têm consciência política das consequências das fomes e constituem uma espécie de aliança de classes para denunciar a fome e os seus exploradores, bem como o regime colonial fascista de Salazar. Os dois aliados escutam o violão de Antonio Mata e Damatinha que numa nova morna, cheia de revolta exprimem o sentimento do povo. Proibida por ser musica de preto porque nao compreendem “o que o violão de Antonio Mana esta’ dizendo”. E Campina continua” esse violão – rapaziada, é povo inteiro que esta’ na agonia, chorando debaixo de postura de tocador”; e continua: “Dentro desse vilão esta’ saindo historia que faz gente-homem arripiar cabelo de cabeça: é silêncio de casa deserta de gente, é trepidação de picareta, é lanho do chicote de policia e de Mulato no lombo de desgraçado, é agonia de gente velha acabando como murraça no lume, é homem de trabalho morrendo como cachorro cheio de coceira, é criatura a pedir esmola e esticando na porta da igreja , é barulho de boca pisando milho crù. Os artistas populares, à imagem do grande poeta e compositor nacional Eugénio Tavares, estiveram assim à frente do combate em defeza do povo e as manifestaçoes culturais nos momentos de partida para Sao Tomé e Principe e Angola com mornas de autores como Lela Maninha, Jorge Monteiro e B.Leza testemunham da adesao imediata ao lado dos nossos poetas e escritores nas lutas por Cabo Verde e o seu povo prosseguidas também na diàspora no Senegal, Estados Unidos e mais tarde na Holanda onde se criou a primeira casa editora caboverdiana em 1965 por Djunga de Biluca. Assim, o romance Famintos será o primeiro romance político caboverdiano pela abordagem de todos os problemas socio-economicos, culturais e politicos da sociedade caboverdiano, onde o povo é o unico heroi e cujo impacto vai ser importante para a luta de libertação de Cabo Verde e da Guiné. Amílcar Cabral e o PAIGC promoveram a edição do romance Famintos, publicado unicamente em 1962 no Brasil, mas proibido imediatamente pela censura em Portugal e colónias.

3. A IMPORTÂNCIA DA EMIGRAÇÃO NAS TRANSFORMAÇÕES POLÍTICAS E CULTURAIS DE CABO VERDE

A sua evolução como escritor no espaço francófono, no contacto com a literatura realista que se produzia em França, foi determinante na reescrita do romance Famintos. Daí pode-se compreender o choque que muitos receberam, mesmo entre os intelectuais, quando da publicação do romance no Brasil. Como ele diz na entrevista de Michel Laban « muita gente, embora à distância dos anos, chegou a dizer que se tratava dum exagero emocional » pois não esperavam que também chegasse ao ponto de denunciar os próprios irmãos da pequena burguesia caboverdiana como sendo os primeiros beneficiários da fome e do regime colonial.

Por isso ele considerava fundamental a emigração como instrumento de consciencialização do homem caboverdiano e dizia na entrevista de Michel Laban, alguns anos após a Independência de Cabo Verde e na continuidade do pensamento do claridoso Baltasar Lopes, que os intelectuais caboverdianos deveriam emigrar para os países dos nossos emigrantes com tradição democrática, para que se fossem consciencializar quanto às formas de emancipação do seu povo. Na entrevista de Michel Laban sobre a renovação da literatura caboverdiana ele diz : « Para renovar a sua temática, a Literatura Caboverdiana terá de desconcentrar-se do arquipélago e ir para perto dos nossos emigrantes, em terras estrangeiras. Nascerá então a Literatura da Diáspora Caboverdiana, de que nada sabemos e faz parte do nosso retrato socio-económico. Há uma tentativa nesse sentido, no meu livro de « estórias caboverdianas », ILHA, em promessa de edição, escrito justamente sobre o comportamento do nosso emigrante fora de Cabo Verde. Enquanto se repetirem assuntos ligados à monotonia do viver caboverdiano, será quase impossível mudar de tema, talvez por efeito de uma herança que recebia-se sem criticar. Ao passo que no estrangeiro a situação é outra : - Os « casos » são diferentes, os contactos e o linguajar mais diversificados ».

Na fase inicial da luta de libertação na Guiné e Cabo Verde, Famintos de Luís Romano, foi um documento importante na denúncia da colonização. O PAIGC, pela mão de Amílcar Cabral, foi um dos grandes divulgadores da obra deste autor. Já que na sua obra, embora condene o apoio da pequena burguesia ao colonialismo e partilhe responsabilidades nas fomes e deportações para as roças de São Tomé, Luís Romano revela-nos um diálogo interessante entre o emigrante consciencializado e o estudante revolucionário.

Se o combate de Luís Romano por uma maior justiça social, pondo termo à exploração do campesinato caboverdiano e à emigração para São Tomé e Príncipe incrimina a pequena burguesia caboverdiana, acontece que Amílcar Cabral vem estender a mão a esta burguesia, que ele considera também uma vítima do colonialismo, numa procura de aliança de classes contra o colonialismo. Mas o projecto de Amílcar Cabral, que exigia à pequena burguesia que se suicidasse enquanto classe durante a luta, não se concretizou a partir do momento em que chegaram de novo ao poder.

O livro Famintos foi lido em todos os cantos da emigração caboverdiana e foi fundamental para o engajamento de muitos caboverdianos na luta pela Independência. Luís Romano apostou sempre na emigração e mesmo do Natal, no Brasil, mandava livros, jornais, revistas, etc. Foi colaborador da revista Nôs Vida da Associação Caboverdiana da Holanda e do Kaoberdi pa Dianti da Associação Caboverdiana de França (1972).

Ensaísta, com incursões na antropologia cultural, publicou : Cabo Verde elo antropológico entre o Brasil e a Africa Mãe e vários estudos sobre a cultura caboverdiana. Defensor da sua língua materna – o crioulo de Santo Antão – publicou um livro de contos e poemas intitulado Lzimparim-Negrume. Também publicou vários artigos na nossa revista LATITUDES.

 
 Natal/RN - Brasil,