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Manuel, de Carnaúba dos Dantas a Betúlia

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Manuel, de Carnaúba dos Dantas a Betúlia

Olimpio e Manel

                         Manuel nasceu em Carnaúba dos Dantas, filho de Celso e Emilia, e pouco depois mudou-se para o Cugi, sítio nos contrafortes da Serra do Doutor, depois de se atravessar Campo Redondo.
Ali, ao lado dos irmãos, Manuel cresceu plantando algodão, tangendo algum gado, dando banho em cavalo e andando quilômetros na escuridão dos sertões para estudar à luz de candeeiros e também para participar de forrós. 
                         Quando virou rapaz, logo após a II Guerra, Manuel serviu ao Exército, vigiando o arquipélago de Fernando de Noronha e fazendo suas farras com os amigos nos dias de folga.
Terminado o serviço militar, Manuel saiu pelo mundo, trabalhou na “Sampaio Correia”, foi comerciante e casou com Niná, viúva com quem teve dois filhos. Aí, Manuel já morava em Macaiba e passou a trabalhar no SAPS. 
                         Tão ligado a essa sigla ficou que, pelas muitas e muitas gentes que o conheciam, passou a ser chamado “Manuel do SAPS”. Por esses tempo, tornou-se militante político, fez de sua casa comitê de Jânio Quadros, foi diretor do Cruzeiro Futebol Clube e do Pax Club, tornou-se amigo de seu Mesquita e de seu Emídio e de mais uma centena de macaibenses, participou de tudo que era movimento comunitário, adotou o espiritismo e se elegeu vereador. 
                         Até onde sei, foi a primeira pessoa a sugerir a Valério Mesquita, após a morte de seu Mesquita, que se candidatasse à prefeitura para não deixar morrer o pensamento do velho líder.
Como vereador, chegou a presidente da Câmara mas recebeu o cargo como uma missão, nunca como lugar de glória, ainda mais num tempo em que os vereadores se elegiam por acreditarem na política e não receberem salários. Manuel brigou com gente importante na chamada “tribuna da Câmara” em defesa de suas idéias e posições, arranjou inimizades que o perseguiram, mas se manteve firme em duas coisas, as quais carrega inabalável até hoje: honestidade e humildade. 
                         Viúvo, casou-se duas vezes e esforçou-se o que pôde para educar os filhos da melhor maneira possível, comeu o pão que o diabo amassou mas deglutiu como se fosse o maná de que tanto fala uma de suas leituras preferidas, a Bíblia. 
                         Do SAPS transferiu-se para o Ministério do Trabalho, passou a trabalhar em Natal mas sem deixar a Macaíba que adotou com afinco e afeto, continuou fiel aos amigos, pagou a quem deveu, mergulhou e submergiu sem nunca passar recibo de tristeza e manteve-se magro, de andar rápido e com inesgotável energia. Serviu-lhe para isso um jeito zen adquirido pelo consórcio dos sofrimentos da vida com a sua fé espírita. Nunca ouvi de sua boca uma palavra de rancor, de raiva ou de crítica a comportamentos pessoais. 
                         Fez amizades pelo valor que via nas pessoas e nunca por suas circunstâncias. Quando seu Mesquita chegou à planície dos que perderam o poder, Manuel ia toda noite à sua casa, e se tornou talvez a única visita permanente e remanescente dos tempos áureos do antigo líder. 
                         Fez o mesmo com seu Emídio, quando o antigo comerciante de algodão fez da varanda de sua casa em frente ao Jundiaí o refúgio solitário dos seus bons tempos. 
                         Manuel não mudou a história de Macaíba, nem de qualquer lugar por onde passou. Mas não tem pessoa que com ele conviveu que não pergunte aos seus filhos por onde anda o amigo que conheceram há dezenas de anos. E onde está Manuel? 
                         Aposentou-se há muito tempo,andou um pouco por São Paulo para ver os irmãos, serve-se do ócio justo para aprofundar suas amizades, algumas delas através das lembranças, acompanhou o encaminhamento que os seus filhos deram à vida e, sentindo ainda um comichão de energia, abriu uma casa de comércio em Betúlia, onde mora, e depois fechou-a para dedicar-se às leituras sob uma amendoeira que o protege das tardes quentes. Lê sobre espiritismo, sua fé pétrea, e sobre os homens, e acompanha o que eles vêm fazendo nesses tempos novos. Vive feliz que só vendo, aos 86 anos, contente com as notícias sobre os seus netos e um bisneto, e de saber que as pessoas com quem partilhou esperanças e antigas lutas ainda perguntam por ele. 
                         Desculpem-me se vocês esperavam alguma coisa mais bombástica e tiveram de se contentar com esta história singela. Mas, me compreendam, eu quero registrar a figura do meu pai como ele é. Desse jeito. 
                         Manuel Dantas de Medeiros não é figura caricata e nem personagem de causos.

Escrito por Osair Vasconcelos 

 
 Natal/RN - Brasil,