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Dr. Aderbal de Figueiredo

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Escrito por: ITALO SUASSUNA Membro Emérito da Academia de Medicina do Rio Grande do Norte.

ADERBAL DE FIGUEIREDO
- MÉDICO EXEMPLAR

“... PROCLAMAR A IMPORTÂNCIA DO QUE
SEAMEARAM EM NÓS. INDIVÍDUOS DE COMO
DEVEMOS CUIDAR NO TEMPO QUE NOS FOI DADO
PARA ESSA JARDINAGEM SINGULAR”
Lya Luft (Perdas e Ganhos, 2003)

               “Um médico por vocação” foi o que disse de Aderbal de Figueiredo, o Prof. Onofre Lopes. Este, fundador e primeiro reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, trabalhara como assistente em serviço cirúrgico dirigido pelo primeiro. Aquele comentário passou a ser repetido com freqüência por muitos daqueles que comentaram e homenagearam a estatura médico-profissional de Aderbal de Figueiredo e lamentaram o seu desaparecimento precoce, aos 55 anos de idade na Cidade do Natal, onde transcorreu a maior parte de sua vida dedicada à medicina.
               É remota a minha lembrança do Dr. Aderbal, do seu tipo físico e sua fisionomia. Eu tinha apenas treze anos quando ele a falecer, mas eu já fora condicionado a lhe prestar homenagem na figura do médico da família. Primogênito em minha casa, tive o privilégio de o ter como padrinho de batismo e, a partir daí, a cultuar a sua memória, até chegar, eu mesmo, à decisão de ingressar numa faculdade de medicina. No dicionário Aurélio dá-se como exemplar o que serve ou pode servir de modelo, e ilustra-se a significação do vocábulo, com uma sentença de Clementino Fraga Filho a respeito de Luiz Feijó. Não obstante esses dois médicos eminentes terem sido meus professores, foi Aderbal de Figueiredo o primeiro médico exemplar que conheci e me foi apontado.
               Constata-se hoje que a memória de Aderbal de Figueiredo conserva-se, entre outras situações, no Memorial do Rio Grande do Norte, inaugurado em 2002 (Av. Rio Branco, 388, Natal, RN) empreendimento meritório do Dr. Olimpio Maciel, e onde se encontra acervo de suas lembranças.
               Contudo, Aderbal de Figueiredo não era natural Rio Grande do Norte. Foi este o seu estado de adoção, aquele que ele escolheu, e que o acolheu retribuindo-lhe o amor. Figueiredo nascera em Sergipe, na cidade de Aquidabã, a 18 de dezembro de 1889, onde fez seus estudos fundamentais no Colégio Salesiano e no Atheneu Sergipano. Em 1917, com 28 anos, portanto, ingressou no tradicional urso de medicina em Salvador, Bahia, transferindo-se no terceiro ano para o Rio de Janeiro, onde colou grau em 1922. É oportuno lembrar que apenas dois anos antes (1920) a faculdade de Medicina do Rio de Janeiro passara a integrar, junto com a Escola Polytechnica [sic] e a Faculdade de Direito, a primeira universidade instituída no Brasil a Universidade do Rio de Janeiro que, em 1937, veio a denominar-se Universidade do Brasil, já então constituída por treze unidades do ensino superior.
               Aderbal foi estudante pobre e precisou trabalhar durante o curso médico. Ao transferir-se para o Rio de Janeiro, em 1920, foi interno do Hospital São João Batista e da Assistência Pública em Niterói. No ano seguinte obteve por concurso a colocação de auxiliar acadêmico da Assistência Pública de então Distrito Federal e, outra vez por concurso no qual obteve o primeiro lugar, passou a interno do Hospital Central da Marinha. No ano em que se formou cumpria o internato com o Prof. Rocha Faria, sendo monitor na 2ª Enfermaria no Hospital da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro. Aloysio de Castro era então o Diretor da Faculdade de Medicina.
               Já radicado no Rio Grande do Norte, no dia em que completou 35 anos de idade (18/12/1924) Aderbal de Figueiredo recebeu como esposa aquela que, daí, passou a assinar-se Dulce Meira e Sá de Figueiredo, de ilustre família potiguar, dedicada a ele em vida, e à sua memória, após o seu precoce falecimento, e que lhe sobreviveu por muitos anos.
               Segundo informação dessa amantíssima esposa, logo após formado “precisando trabalhar” o Dr. Aderbal ingressou no Serviço de Saneamento e Profilaxia Rural, sendo designado para Propriá, em Sergipe e, dois meses depois, incubido de fundar e dirigir um posto na cidade de Caicó, já no R. G. do Norte. Além de sua porta de entrada no estado potiguar, Caicó representou uma baliza nas suas preocupações profissionais, abrindo de sua formação cirúrgica urbana para a consideração dos problemas higiênicos e aspectos sociais da medicina. Passou a colaborador do jornal local “Seridoense” assinando crônicas que tinham por títulos “Propaganda Sanitária” e “Pontos de Vista”. Tornou a cidade de Caicó pioneira na adoção das fossas sanitárias. Elaborou trabalho sobre a freqüência de teníases. Quando o posto de profilaxia rural foi extinto para a transferência dos seus serviços a outra área, desligou-se dessas atividades para dedicar-se à clínica privada, amparada na confiança que granjeara junto à população de Caicó. Impulsionava-o um sonho: a construção do hospital regional. E foi assim que , com o apoio da sociedade civil e de órgãos oficiais ergue-se em quatro anos o Hospital do Seridó, apontado pela crônica como “iniciativa pioneira na interlândia norte-rio-grandense”. Ainda segundo Dna. Dulce, concluído o hospital, pensou em voltar e fixar residência no Rio de Janeiro, mas em 1929, uma oferta do governo do estado nordestino o levou a aceitar as posições de médico de saúde pública e de medicina legal, com o que veio a residir na capital do Estado. Em Natal, começou a trabalhar no seu único hospital geral existente àquela época: o Hospital de Caridade Juvino Barreto. Este, anos depois, veio a chamar-se Hospital Miguel Couto (o único que conheci em minha infância) e foi posteriormente integrado à Universidade Federal do R. G. do Norte.

Dona Dulce Meira e Sá Figueiredo.

               Cabia agora entender ao seu desejo de aperfeiçoamento. No ano seguinte, a custa própria, viajou para a Europa faltando-lhe o incentivo oficial ou o mecenas benfazejo. Dirigiu-se a Paris, onde estudou clínica ginecológica com Jean Louis Faure, clínica cirúrgica com Gosset e urologia com Maurice Chevassu. O Dr. Clovis Travassos Sarinho, historiador e médico renomado no R. G. do Norte, sublinha que esses três nomes constituíram a tríade de expoentes da urologia francesa naquela época. É curioso assinalar que o Dr. Sergio Martins Pandolfo, em suas notas sobre Juscelino Kubtschek (RBMel nº8, 2002) aponta para o mesmo ano e no mesmo serviço (Chevassu) a presença do futuro presidente. Teria havido esse encontro? Durante a estada na Europa, Aderbal de Figueiredo obteve ainda treinamento em anatomia médico-cirúrgica e em cirurgia experimental na Faculdade de Medicina e Paris.
               Na volta a Natal foi chefe de clínica cirúrgica e de clínica urológica do Hospital Miguel Couto, desvinculando-se da saúde pública, embora continuasse como diretor do Gabinete Médico Legal. Segundo testemunho da Dna. Dulce (que em grande parte consubtancia este relato), aí executou os primeiros embalsamentos em Natal, nos corpos de mecânicos de origem francesa, em duas ocasiões distintas. A ele atribui-se também a primeira operação cesariana local, celebrada pela atribuição do nome “Cesariana” á recém-nada.
               Ao lado da clínica particular permaneceu como chefa da clínica urológica até o final de sua vida ativa, afastando-se da mesma quando comprometido por grave insuficiência cardíaca, da qual veio a falecer em 26 de agosto de 1944, aos 55 anos. Segundo o jornal “A República”, teve um dos maiores cortejos fúnebres já vistos na cidade (27/8/1944).
               Foi sócio fundador da Sociedade de Medicina e Cirurgia do R. G. do Norte e sócio correspondente da sociedade coirmã do Rio de Janeiro. Exerceu o cargo de secretário da Sociedade de Assistência Hospitalar. Ativo e atento aos movimentos associativos médico-profissionais, consta, entretanto, que Aderbal de Figueiredo apressou transferir-se de Caicó de Natal, devido a murmúrios de que acalentaria motivações de caráter político. Que não as teve. Apesar disso, foi preso com outros colegas, por quase um mês, por ter demonstrado apoiar a causa constitucionalista de São Paulo, em 1932. Também foi signatário da fundação do Partido Popular, de José Augusto Bezerra de Medeiros, político que o ajudara na construção do Hospital do Caicó.
               Ao morrer, Aderbal de Figueiredo mereceu penegíricos e homenagens dos mais destacados cirurgiões e médicos natalenses, como Onofre Lopes, de quem já falamos, Clovis Travassos Sarinho, a quem havia sucedido na chefia da clínica cirúrgica, e Januário Cicco, guia da reforma da assistência hospitalar no Estado e autor de sua oração fúnebre.
               Na minha remota lebrança de menino, o Dr. Aderbal, como usualmente o chamávamos, era aquela médico que me dedicava uma atenção especial, quando eu acompanhava a minha mãe, Dna. Iracema Andrade Suassuna, ao seu consultório. Era meu padrinho de batismo. O seu consultório, uma dependência de sua residência, localizava-se na Av. Junqueira Aires, 448. Esta era (ainda é) a longa avenida que correspondia à ladeira que ia da Cidade Alta ao bairro vizinho da Ribeira. Segundo tradições e o folclore da cidade, ficava entre o xarias e os canguleiros, indicando os que tinham como espasto, xareus ou cangulos. Aquele peixe consumido pela classe economicamente mais favorecida, na Cidade Alta, e este, pelos habitantes mais pobres da Ribeira.
               Descendo esta ladeira chegava-se à residência de Luis da Câmara Cascudo, o intelectual potiguar fértil em todos os campos das ciências do homem. Por longos anos Cascudo escreveu crônicas em uma coluna no jornal “A república”, intituladas “Acta Diurna”. Numa dessas crônicas Cascudo expressou sua saudade de Aderbal de Figueiredo, lamentando “o rapaz de quarenta anos, sucubindo numa agonia que amargurou toda a cidade”. Tem-se repetido esse registro da idade em torno dos quarenta anos ao falecer. Por todos os registros que apontam a sua data de nascimento e de morte, ele faleceu aos 55 anos, pois nascido em 1889 e morto em 1944. É possível que os dez anos a menos na referência a sua idade ao morrer traíssem apenas a sensação de sua aparente juventude. Cascudo detém-se sobre seus encontros com Figueiredo, médico que lhe atendia o sogro, hospedado em sua casa e que, nas visitas, conversava, comentava, sugeria e planejava livros e cursos, logo que... Segundo Cascudo: “Aderbal conhecia história, arqueologia, numismática, como um técnico. Ultimamente estava lendo Folk Lore [sic]. Lia em vários idiomas que aprendera. Ra original em dizer, opinar e propor. Autoditada, estudava sempre como uma sorridente curiosidade pela cultura humanística. Podia falar como um mestre sobre os assuntos mais distantes...”.
               Entre estes foram mencionados a prataria francesa, a história do corredor polonês, figuras e ações de cientistas e, naturalmente, tópicos médicos relativos a cirurgia, moléstias profissionais, e a Clínica Mayo, perante a qual declinou de uma oferta de estágio profissional.
               Onofre Lopes assim o recordou: “sua voz quente e entusiástica (...) sua figura rápida a se mover de leito em leito: temos saudade de sua conversação erudita, da mobilidade do seu espírito, da sátira dos seus conceitos. Quando um fato novo na prática científica empolgava-lhse o espírito, ascendia-lhe à fisionomia um fogo de glória (...) e, ao calor de sua palavra moça e cheia de fé, contagiava os seus colegas daquela emoção. Alegre, simples e comunicativo, imprecionava por estar sempre a par de tudo, assuntos médicos, sócias e políticos.”.E complementa sua lembrança: “antes de um crítico ou de um investigador foi um erudito e um grande prático”.
               O casal Aderbal de Figueiredo e Dulce Meira e Sá, não tiveram filhos. Ela, de educação esmerada participou da fundação da aliança francesa no Rio Grande do Norte. Como lazer dedicava-se à pintura e escultura e aliou-se ao marido no interesse pela filatelia e numismática. Foi a sua continuadora nos projetos sociais. Relatou Câmara Cascudo que soubera da incorporação ao patrimônio de Figueiredo de uma extensa propriedade no bairro do Tirol, com o propósito de amparar crianças pobres, dando-lhes creche, educação e orientação profissional, e diz “vi-o num grande sonho e numa grande alegria quando me segredava esse ideal”. Dulce Meira e Sá, não poderia ter outro antenome mais adequado, pois este foi o sonho por ela continuado, ao doar o terreno do Tirol, de 30 mil metros quadrados às irmãs Salesianas, como o queira Figueiredo. Aí se ergueu o Instituto Maria Auxiliadora. No documento de doação constou a exigência de curso noturno para jovens carentes. Na própria residência Dulce Figueiredo empresariou uma confecção de enxovais para recém-nascidos, com a oferta de trabalho para uma centena de meninas.
               Ao morrer Aderbal de Figueiredo, nos meus treze anos, praticamente eu não tinha tido contato com a madrinha dos. Mais tarde todavia, quando ela tomou conhecimento que eu havia ingressado então para a Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, a mesma que fora a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, na qual se graduara Aderbal de Figueiredo, dela recebi com atencioso oferecimento algum de seus livros, destacadamente, a anatomia de Rouvière e a microbiologia dos autores alemães Kolle e Hetsch, em sua tradução francesa de 1911. Isto talvez pela ausência de filhos próprios que os recebesse.
               Conceitualmente é imutável a anatomia humana, e aqueles volumes serviram, não só a mim, como aos meus irmãos e filho que vieram a ser, igualmente, médicos. Os antigos volumes de microbiologia, ciência de desmedido crescimento ao longo do século XX, correspondiam ao mais valioso repositório do início de sua história, o qual ainda recentemente tive oportunidade de usar, para configurar a forma do pensamento naquele primórdios da microbiologia (ver: Suassuna, I. Microbiologia Médica: Começo e Caminhos, in Sidrin & Rocha, Micologia Médica à Luz de Autores Contemporâneos. Rio, Guanabara Koogan, 2004).
               AGRADECIMENTO Ao empresário e historiador Luiz G. M. Bezerra, sobrinho do casal Figueiredo, e novel amigo, que me facultou um precioso dossiê.

 
 Natal/RN - Brasil,