Instituto José Maciel

Conteudo

Depoimentos

Estatísticas do Site

Membros : 32983
Conteúdo : 691
Links da Web : 6
Visualizações de Conteúdo : 1355647

Pessoas Online

Nós temos 32 visitantes online

Depoimento de Francisco Cabral da Silva sobre a Fundacao da Cidade de Sao Pedro

E-mail Imprimir PDF

Convidada a fazer palestra em uma escola de São Pedro sobre a fundação desta cidade, fiquei em dúvida de como realizá-la. Pelo tempo que dispunha, pouco poderia pesquisar. Certamente iria ficar limitada ao que já se havia escrito sobre o tema. Pouco ou nada poderia adicionar ao já conhecido sobre a criação da cidade de São Pedro. Foi então que um santo me ajudou. Por que não entrevistar o fundador da cidade, o "garoto" Chico Cabral ¹. Ninguém melhor do que ele para contar de viva voz os fatos que levaram à edificação desta cidade. Não foi difícil entrevistá-lo. Este é um assunto que ele gosta de falar, porque lhe toca seus mais caros sentimentos e recordações. Dissertar sobre São Pedro é expor sobre sua própria vida. Os dois se confundem. O Homem e a Cidade se misturam. Não consigo perceber seu Chico, meu pai, sem sua querida São Pedro. Portanto, o relato que as senhoras e os senhores vão ouvir agora não é meu, mas do Seu Cabral. Apenas transcrevi as fitas. O discurso é dele, eu sou apenas a sua porta-voz. É a história oral da fundação de uma cidade, narrada por seu fundador.

No início do século XX, Pedra Branca pertencia ao Município de São Gonçalo. Era um povoado que se destacava naquela área. Ali havia um comércio regular e uma feira semanal, às segundas-feiras, para onde se deslocavam comerciantes de São Paulo do Potengi, Macaíba. São Gonçalo, Bom Jesus, Juremal e outras cidades. Tinha escola, capela, cemitério e uma agência dos Correios, cuja funcionária responsável era esposa do chefe político local. Suas festas eram conhecidas como as melhores da região, entre as quais se destacavam a da Santa Cruz do Monte, realizada a 1° de maio, e a do Natal, quando o povoado se cobria de barracas, de botequins, com a tradicional missa do Galo que enchia a capela com fiéis das redondezas. Uma vez por mês realizava-se uma missa, celebrada pelo pároco de São Gonçalo, que também atraia grande parte da população da vizinhança. Era um grande acontecimento. Mas no meio desse progresso existia a política, suas paixões e ambições.

Por volta de 1927, Francisco Cúrcio Marinho, conhecido como Chico Cúrcio, meu parente e comerciante ambulante de tecidos, foi desacatado pelo senhor Antônio Guedes Mesquita, vulgo Tota Taboca. Tota era o maior comerciante do povoado, onde tinha uma loja de tecidos, e também chefe político local. Ele recebia apoio do capitão Pedro Cavalcante, chefe político do município de São Gonçalo. Assim, valendo-se da condição de chefe político e alto comerciante, Tota Taboca, temendo a concorrência, proibiu Chico Cúrcio de instalar sua banca na feira. Sentindo-se humilhado e sem condições de voltar ao povoado, Chico me procurou e disse: "Cabral, não posso mais comercializar em Pedra Branca porque o homem só faltou me botar na cadeia. Você topa a parada de fazermos uma casa do outro lado do rio?" Sabendo das consequências de um ato desses, ponderei um pouco, mas respondi: "Topo, mas a parada é muito forte. Pode haver morte! Vamos ao coronel Neco Freire para ver se ele apoia, pois se houver qualquer coisa ele nos ampara". Fomos então falar com o coronel Neco Freire. Chico explicou-lhe toda desmoralização sofrida e ele prometeu cobertura para o que acontecesse, mas pediu-nos para não falar a ninguém sobre nossa intenção. Na ida a Macaíba, acompanhou-nos um comerciante de Pedra Branca, Júlio Ferreira de Souza, conhecido como Júlio Vitória, que também estava sendo perseguido por Tota Taboca.

Coronel Neco Freire, Manoel Maurício Freire, com quem trabalhei por muito tempo, era chefe político de Macaíba, e gozava de grande prestígio no Estado por mérito pessoal e por causa do seu irmão Teotônio Freire, juiz seccional. Entre seus amigos estavam os ex-governadores do Rio Grande do Norte, António de Souza e Ferreira Chaves.

1 *02/02/1895 +24/04/1995

Assim, precisávamos do seu apoio, não apenas para neutralizar a ação de Tota Taboca, mas porque o local onde queria estabelecer o novo povoado pertencia a Macaíba.

Depois da conversa com o chefe político macaibense, seguimos em comitiva à procura da terra para instalar o novo povoado. Dirigimo-nos a cavalo para a casa de António Nicácio, proprietário rural na região, que havia prometido a terra para o início da futura São Pedro. Ao chegarmos ele disse: " 'Não dou mais a terra Seu Cabral, prometi, mas não vou dar'. O sogro dele, Manuel Felix, avô de D. Nazinha (Maria Nazaré Soares), um tipo alto e forte, que se encontrava sentado, observando, levantou-se e botando as mãos nos quartos disse: “O velho Tota falou que se ele desse a terra, mandava dar-lhe uma surra. Seu Cabral, meu genro não dá a terra p'ro senhor fazer o povoado porque tem medo do seu Tota. Eu tenho terra e não tenho medo do Seu Tota, portanto, me acompanhe com sua comitiva”.

Caminhamos por suas terras, onde hoje estão edificadas as casas, as lojas, as escolas, o mercado e a igreja de São Pedro ². Ali chegando, Manoel Felix foi logo perguntando: "Quanto de terra o senhor quer?". Acertando os detalhes, ele disse que podia tirar o que precisasse, fazendo apenas um pedido: queria construir uma capela. Respondi que não se preocupasse, pois eu mesmo iria construir a capela, como o fiz.

Liberado o terreno, chamei um homem muito forte, João Militão, e perguntei quanto queria para me dar a área roçada, destacada e limpa para se fazer a inauguração. Militão cobrou 70 mil réis. No dia seguinte, fui bem cedo levar as ferramentas para ele iniciar o serviço. Ele juntou uma porção de homens e eu disse: 'Trabalhe que eu vou marcar o dia da inauguração'.

Como previsto, o clima ficou muito tenso. As perseguições e ameaças tornaram-se moeda corrente. Tota Taboca fazia todo tipo de pressão, como não podia deixar de acontecer. Na época, era delegado de polícia em 'Macaíba Jacinto Tavares, que se ofereceu para mandar os soldados que necessitasse. Agradeci a oferta e respondi: “Eu arranjo uns homens da minha confiança, da minha amizade, que topam qualquer situação”. Arrumei dois homens fortes e dispostos - João Militão e João Olímpio - que passaram a me acompanhar constantemente. Essa medida me deixou mais tranquilo.

Enquanto preparávamos o terreno para instalar o povoado, vinha o dia de Natal e pensava em um nome para o povoado. Por volta das seis horas da tarde, ao passar pelas Marias, pensei: “Isto já é o caminho dos Santos - São Paulo e São Tomé - e o nome da povoação só pode ser São Pedro. Foi assim que surgiu o nome e não quando foi sugerida a construção da capela por Manoel Felix, conforme está escrito na História de São Pedro”.

Finalmente, estando a terra preparada, as pessoas foram se aproximando e chegamos ao dia da inauguração, 12 de setembro de 1927. A área ficou cheia de botequins, todos com fachos acesos, iluminando a primeira noite da cidade. Para funcionar como igreja, foi construída uma latada na casa de Cícero Felix. E ali foi celebrada a primeira missa de São Pedro pelo Padre Severino Ramalho, pároco de Macaíba. Estava fundado assim o povoado sob a bênção do seu Santo padroeiro.

2 A criação do município de São Pedro ocorreu de acordo com a Lei n. 2.790, de 11 de maio de 1962. Sua instalação verificou-se em 11 de junho de 1962. Os dois primeiros prefeitos foram nomeados: Dr. Adauto Pinheiro Assunção, empossado em 9 de junho de 1962, e Serafim Marques da Silva, nomeado em 23 dedezembro de 1963, que tomou posseno dia 31 do mesmo mês. O término do mandato de Serafin ocorreu em 31 de janeiro de 1964. O primeiro prefeito constitucional eleito foi Edmundo Mafra Cabral, que administrou o município de 1964 a 1969, scguindo-se: José Augusto Bezerra (1969/72); Francisco Ribeiro das Chagas (1972/73); Francisco Cabral da Silva (1973/77); Marli Silva de Brito (1977/83); José Osvaldo da Rocha (1984/88); Francisco Ribeiro das Chagas (1989/92) José Osvaldo da Rocha (1993/96); Francisco Ribeiro das Chagas (1997/2000); Francisco Ribeiro das Chagas (2001/04); João de Deus Garcia de Araújo (2005/2008).

A festa rolou a noite toda. Quase às cinco horas da manhã ainda havia um botequim funcionando. Encostei lá e topei com um homem chamado José Honorato, que usava uma bodoroca³ a tiracolo. Convidei-o para tomar uma cerveja. Bebemos a cerveja e, lembro-me, ele puxou uma nota de 200 mil réis e disse bote 200 mil réis de cerveja para o coronel. (Uma cerveja custava dois mil reis e fiquei pensando como iria beber 100 cervejas!). Nisso partiu um cabra com um punhal na mão para me assassinar. Meus dois homens atentos se atracaram com ele. Foi uma luta imensa. Só faltei morrer do coração. Quando dominaram o homem, disseram: “Mata, mata o cabra”. Não podia deixar que isso acontecesse e falei: “Não, não me façam isso, não me matem o homem pelo amor de Deus!” Controlada a situação, mandei trazer o carro e pedi que o chofer, acompanhado de dois homens, fosse entregá-lo ao seu patrão, António de Mesquita, no município de São Gonçalo, em Pedra Branca. Mas avisei que se ele voltasse ao nosso povoado, não voltava mais para lá. A verdade é que não voltou mais e a festa foi até de manhã.

Fui nomeado delegado logo que surgiu o povoado e fiquei no cargo durante sete anos. Tentava resolver os problemas que surgiam sem prender as pessoas e quando isso acontecia era por poucas horas. Se os soldados prendiam alguém, logo eu mandava soltar. Evitei muitas surras e mortes. E havia muita questão por causa de terra ou de terrenos invadidos - alguém construía casa em terreno dos outros sem autorização e o resultado era uma briga. Aí entrava o delegado para apaziguar os ânimos. Todos me obedeciam. Podiam estar na maior briga, quando eu chegava, mandava parar e pedia as armas. Nunca ninguém se recusou entregá-las. Nessas situações e em muitas outras, Deus e as rezas de Carmita4 sempre me ajudaram. O povoado foi crescendo, mas seu desenvolvimento não era fácil. O Sr. Tota Taboca continuava a criar todos os empecilhos às pessoas que queriam mudar para a outra margem do rio. E muitos desejavam residir cm São Pedro. Para impedi-los de sair de Pedra Branca, o Prefeito de São Gonçalo, Alcides Rocha, casado com a filha de Pedro Cavalcante, enviou vários soldados para proibir que as pessoas derrubassem suas casas e carregassem o material para reconstruí-las em São Pedro. Mas, com o jeitinho brasileiro, tudo ficou resolvido. Sempre que alguém queria sair de Pedra Branca me comunicava e eu pagava aos soldados para fecharem os olhos. E assim, aquela cidade foi decaindo e o povoado de São Pedro progredindo cada vez mais.

Logo providenciei a construção do mercado e da capela. A imagem de São Pedro foi doada pêlos velhos amigos e compadres Osvaldo e Ulisses Medeiros e o sino por Aureliano Medeiros. Construídos o mercado e a capela, percebi que a edificação dos dois fora feita em local errado: perto da estrada, único lugar para passagem com trânsito livre. Mandei, então, derrubar os dois prédios e reconstruí-los no local onde estão até hoje. Sem presunção, mas com muito orgulho, digo hoje que a maior parte do povoado foi construída às minhas custas e com a ajuda daqueles que gostavam e faziam parte da minha política. Entrei com praticamente 50%. A outra parte do dinheiro foi conseguida de proprietários da região que doavam em espécie ou em reses, cabras, bodes, etc. que eram leiloados. Fazíamos festas muito animadas, quando realizávamos os leilões. Também usávamos outros meios para conseguir dinheiro. Passava dias e dias andando pelas fazendas, pedindo ajuda aos proprietários. Minhas rilhas e meus filhos também auxiliavam nas festas. Todos se envolviam na construção e consolidação de São Pedro.

Com o passar do tempo. São Pedro crescia enquanto Pedra Branca decaía a olhos vistos. E isto justificava perfeitamente a transferência da agência dos correios para São Pedro. Assim, através da política, da amizade que tinha com José Anselmo, diretor dos Correios e Telégrafos, e de um abaixo-assinado com mais de 100 assinaturas, conseguitirar a agência de lá e instalar em nossa cidade. Isso aconteceu por volta de 1929. Para dirigir a agência, foi nomeada uma moça que logo casou e viajou para São Paulo, sendo substituída por D. Nazinha. É bom dizer que o esvaziamento de Pedra Branca era completo. Os comerciantes de lá foram passando para São Pedro, fortalecendo nosso comércio. Quem não quis passar para cá, acabou-se.

Existia grande mágoa de Pedra Branca em relação a mim. O chefe político local, Tota Taboca, era meu inimigo. Uma noite, durante uma festa, fui lá juntamente com Clínio Caldas, então prefeito de São Gonçalo, que me apanhara em Macaíba para a festa, convidando-me para ir com ele à casa do chefe político. Recusei o convite, pois Tota não falava comigo, embora sua mulher, D. Candinha, o fizesse. Finalmente, aceitei e lá fomos muito bem recebidos, sendo conduzidos até a sala de jantar pelo dono da casa. Em certo momento, ele quis falar sobre política, mas falei que era um dia de festa e eu não estava ali para conversar sobre tal assunto e se quisesse ao sair da sua casa tudo poderia continuar como antes. Depois disso, a malquerença foi diminuindo, ele foi enfraquecendo politicamente e voltamos a nos falar.

3 Bolsa de couro para guardar dinheiro e outros pertences, carregada a tiracolo.
4 Maria do Carmo Mafra Cabral, sua esposa.

As questões, as brigas, as desavenças, as ameaças de morte foram constantes, mas devagar fui superando todas elas. Hoje, depois de quase um século de vida, tenho certeza que valeu o sacrifício porque, além da cidade, construí muitas amizades. Eu, que já vivi tanto, posso dizer com total convicção que na vida o que vale são os amigos. Mesmo aqueles que no calor da luta se voltaram contra mim, com o tempo passaram a falar comigo e alguns até se tornaram meus amigos. E isso é extremamente gratificante. Na minha idade, vivo das recordações de um passado que foi tudo, menos monótono; do amor da minha família e do calor das amizades que fiz durante a minha longa existência. “E, dentro das recordações e certezas, uma me é extremamente cara, a de que São Pedro para mim não é apenas uma cidade, mas uma filha dileta que ajudei a criar”.

Depoimento prestado a sua filha
Elizabeth Mafra Cabral Nasser, em
28 de junho de 1989, que serviu de
base para uma palestra realizada
em uma escola pública de São
Pedro.

 
 Natal/RN - Brasil,