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Luiz Francisco Junqueira Aires de Almeida

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Longa e trabalhosa tem sido minha vida pública. Conto oitenta anos de idade e, aos vinte, já era jornalista provinciano e político militante, tomando parte ativa em esperas pelejas partidárias, nas quais, por circunstâncias favoráveis, meu nome ganhou relativa notoriedade do Estado, que, desde muito moço, tive a fortuna de representar durante um decênio na Câmara dos Deputados, em quadra acidentada da consolidação do regime republicano. D’ahi Sahi para fazer minha aprendizagem administrativa no cargo de governador, que renunciei antes de terminar o mandato por imperativos de ordem política.

A seguir, fui ministro da Justiça com Affonso Penna,  n’uma hora de sombrias inquietações nacionais; senador, com responsabilidades as vezes pesadas, nas presidências de Nilo Peçanha e Hermes da Fonseca; e por fim, ministro da Viação e interinamente da Fazenda na de Wenceslau Braz, em dias tormentosos da primeira conflagração mundial. Nesse posto, atingi ao apogeo de minha carreira política. Depois vieram a adversidade e as decepções. Mudei de campo de ação. Fiz-me juiz do Tribunal de Contas. Não me seduziam mais os triunfos efêmeros da vida pública. Cumpria lealmente meus deveres de solidariedade com os amigos generosos que me acompanharam no ostracismo; mas, para mim, não queria posições de evidência. Recusei mesmo algumas, como a de ministro do Estado, pela terceira vez. O que ambicionava, sem prejuízo do consciencioso cumprimento de minhas obrigações funcionais, era apenas viver na solidão de meu gabinete de trabalhos e estudos, onde, não raro, me aprazia e me apraz evocar a memória dos companheiros ou antagonistas de outrora. E escrevo páginas de saudades, recordando tempos idos.

É de algumas dessas páginas, ­- incluídas n’um livro inédito Dias que passaram – que vou me aproveitar para esboçar ligeiramente o perfil de Luiz Francisco Junqueira Aires de Almeida, de luminosa projeção  no alvorecer da República. Era bahiano. Engenheiro civil. Pedro Velho se relacionara com ele desde os bancos acadêmicos, um cursando a Faculdade de Medicina e o outro a Escola Politécnica da Corte. Formados, tomaram rumos diferentes: Pedro Velho voltou para sua província, foi clínico abalizado, professor ilustre, propagandista ardoroso da abolição, evangelizador, convencido do credo democrático e, depois de 15 de novembro de 1889, a figura máxima da história republicana norte-riograndense;Junqueira Aires envolveu-se nas lutas acirradas dos partidos em sua terra natal e, graças ao tradicional prestígio de sua família e aos seus merecimentos excepcionais, entrava, aos vinte e cinco anos, para a última Câmara conservadora do Império, onde revelou, desde começo, seus altos dotes de orador. Informa-o Affonso Celso em oito anos de parlamento:

<<Em 1886, apareceram dois moços que prometiam muito como oradores: Jaime Rosa e Junqueira Aires, este da Bahia, aquele do Piauí. Suas estréias causaram sensação. Morreram ambos sem realizar o que anunciavam, Junqueira Aires figurou sob a República. Mas apagadamente.>>

Aqui o laureado escritor laborou num equívoco, aliás explicável, conforme me declarou pessoalmente, por que, quando Junqueira retornou à Câmara em 1894, se achava exilado na Europa desconhecendo por isso os estripitosos sucessos por ele alcançados, especialmente na campanha parlamentar contra o adiantamento das sessões do Congresso Nacional, em que seus discursos se tornaram famosos.

Com a ascensão de Ouro Preto ao poder, pouco antes de sossobrar o trono, Junqueira Aires afasta-se do cenário político, indo exercer cargos profissionais em Minas Gerais; e, em 1892, foi nomeado engenheiro fiscal da Estrada de Ferro de Natal a Nova Cruz, com grande satisfação de Pedro Velho, que, - seu velho admirador e amigo, - tudo fez para atraí-lo ao grêmio de seus correligionários. Relutando a princípio, cedeu aos poucos de seus primitivos propósitos e começou a colaborar nas gazetas partidárias, onde seus artigos se destacavam, em regra, pelas galas e louçanias do estilo. Depois de seu ingresso na imprensa, foi completa sua identificação com o situacionismo estadual, em cujas festividades os mais retumbantes aplausos coroavam suas orações quentes e vibrantes.

Em outubro de 1893, deviam efetuar-se as eleições gerais para a renovação do terço do Senado e da Câmara dos Deputados, tendo Pedro Velho lhe oferecido um lugar na chapa oficial. Recusou. Pedro Velho insistiu; e, em fins de agosto, conseguiu vencer suas resistências. Mas já então era discutível sua elegibilidade por ser funcionário demissível. Uma noite, - seriam dez horas, - mandou-me um recado para ir ao Palácio. Fui. Encontrei-o só. Expôs-me em reserva as combinações de bastidores em andamento para a escolha de nossos candidatos ao Congresso Nacional. O partido havia resolvido que a chapa seria assim composta: Almino Affonso para o Senado; Augusto Severo, Junqueira Aires e Francisco Gurgel para a Câmara dos Deputados. Eu disputaria o quarto lugar extra-chapa. Esta combinação, porém, tinha de ser alterada em conseqüência das dúvidas que haviam surgido no tocante à eleição de Junqueira. Eu substituí-lo-ia na chapa e ele seria votado no rodisio. Se a incompatibilidade suscitada não prevalecesse, o que pensava sucederia, de vez que eram técnicas as funções que ele exercia e a lei se referia a funcionários administrativos, faríamos sem dificuldades os quatros Deputados. Se, ao contrário, viesse a prevalecer, precisaríamos de uma vaga para ele, que não podia ficar fora da representação. Nesta hipótese esperava que eu abrisse oportunamente essa vaga. Era um serviço que me pedia. E acrescentou: conheço-te bem e sei que posso contar contigo. Não se enganou, respondi-lhe eu. Disponha de meu nome, como quiser e entender. Resultado: minha inclusão na chapa.

Posteriormente, Junqueira foi removido para Pernambuco e, com o adiantamento das eleições para Dezembro de 1893 e, mais tarde, para Março de 1894, desapareceu sua problemática inelegibilidade, que era de três meses e restrita ao Estado em que estivesse servindo. Elegemos todos os Deputados e ele entrou para a nova Câmara, arena em que conquistaria, dentro em pouco, a justa fama de notabilíssimo orador. E conquistaria sem favor, por que sua eloqüência era verdadeiramente impressionante e dominadora. Nunca escreveu discursos. Nem ninguém, naquela época, se animaria a escrevê-los e lê-los em assembléias políticas. A realeza caira não havia muito e ainda não esquecêramos as encenações espetaculares do parlamentarismo convencional do segundo reinado, uma grande escola para os moços, cheios de talento, de audácia e de idealismo construtor, ao penetrarem nos passos do primeiro poder da nação. Mas, embora não escritos, seus discursos eram, no fundo, modelares; e, se alguns deles pouco interesse despertam de presente, é por ser outro o ambiente trepidante de paixões que hoje respiramos.

Depois de empossado de sua cadeira de deputado, Junqueira Aires só voltou uma vez a Natal, - em fevereiro de 1896. – Extraordinárias as manifestações de regozijo com que foi recebido. Entre outras, um banquete realizado a 21 daquele mês, em que Pedro Velho, - como ele mestre e senhor da palavra, - o saudou em primorosa oração, a que respondeu entoando um hino de louvor à terra norte-riograndense, que lhe restituíra, com a fé dos eleitos, os mais nobres estímulos nas intensas competições da vida pública. Então, ainda não era de uso determinar protocolarmente nas festas políticas locais e número de oradores. Falava quem queria e quantas vezes queria. Junqueira Aires utilizou-se dessa tolerância e pronunciou nada menos de nove discursos, percorrendo a gama inteira de sua peregrina eloqüência. Tamanha a impressão produzidas por esses discursos, - todos impregnados de cunho patriótico ou vazados em moldes acadêmicos, - que Segundo Wanderley houve por bem traduzi-la de momento nesses versos inspirados.

Lava candente que a cratera exala.
Hino ignoto de febril cascata,
Tua palavra as almas arrebata,
Tua eloqüência os peitos avassala,

Para escutar-te as vagas emudecem,
voam dos bosques as aves encantadas,
Pairam no ar as brisas perfumadas
e os próprios astros das esferas descem.

Do Panteon do rutilo procenio
Glorificam-te os vôos de teu gênio,
Divinisa-te a luz de tua idéia.
Filho da Pátria da imortal Moema,
Tua fronte merece um diadema,
Teu civismo reclama uma epopéa.

A. TAVARES DE LIRA(Sócio fundador e benemerito) 
 
 Natal/RN - Brasil,