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Solar Caxanga: Casa da Memoria Macaibense

Nicho onde se abriga hoje uma parte significativa da memória potiguar, o Solar Caxangá, datado de 1850, com seu despojado visual colonial a que não faltam elementos arquitetônicos encontráveis em cidades como Olinda e Ouro Preto, é um dos sítios históricos mais bem preservados de Macaíba, nos dias de hoje. Sua fachada cativa de imediato os visitantes e curiosos, que vêm vê-lo de perto, graças ao traçado primitivo de suas portas e janelas, ao pátio de ladrilhos retangulares alternadamente claros e escuros, ao gracioso portão de ferro de barras verticais, encimado por um frontão clássico, composto de arabescos de traçado sinuoso e simétrico, encravado em pilares homogêneos da mesma altura e que parecem sugerir uma passagem secreta que leve diretamente ao passado do seu esplendor: o tempo dos senhores de escravos, das casas-grandes e senzalas, das sinhás e das mucamas, dos engenhos de açúcar e das fazendas de gado cujos limites, a perder de vista, serpenteavam rios, pradarias e arvoredos.

Mas é no interior do Solar Caxangá, cuja localização dista de menos de um quilômetro da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, que se encontra um dos mais variados, valiosos e bem documentados acervos museológicos do Rio Grande do Norte, no qual se podem ver coleções de fotografias, bustos de personalidades da vida pública e cultural do Estado, bibliotecas de escritores e poetas, objetos de época, como gramofones, discos de vinil, mós de moinhos de engenho, registros cartoriais, manuscritos etc. Dentre esse complexo espólio da memória macaibense, sobressaem-se os espólios epistolares do ex-prefeito Djalma Maranhão e do poeta e artista plástico Newton Navarro, além das bibliotecas particulares de Luís Romano e Otacílio Alecrim, livros diversos, além de obras editadas pela Fundação Pró-Memória, por nós dirigida. Essa fundação, aliás, vem relançando, de uns anos para cá, uma série de obras essenciais das letras norte-rio-grandenses e que, há tempos, estavam esgotadas. Dentre outros autores, destacamos obras de Renard Perez e Otacílio Alecrim, dois dos maiores nomes da literatura norte-rio-grandense nascidos em Macaíba.

O visitante que chega pela primeira vez ao Solar Caxangá depara, à entrada do primeiro cômodo do prédio, com o busto em bronze do aeronauta Augusto Severo de Albuquerque Maranhão, o artífice do dirigível “Pax”, um dos nomes mais ilustres de Macaíba e que o Rio Grande do Norte conhece como patrono do aeroporto internacional da capital de nosso Estado. Na mesma sala, vasto conjunto fotográfico documenta a história do coronel José Estêvão Barbosa de Moura, da Guarda Nacional, construtor do Caxangá, onde mandou erguer uma capela, em 1876, que recebeu o nome de um santo homônimo: São José. Esse pequeno templo religioso, situado no mesmo terreno do solar, é parte obrigatória do roteiro turístico de quem visita a cidade de Macaíba, devido à boa conservação da arquitetura e relíquias religiosas que abriga.

O ambiente seguinte é dominado por vasta coleção de fotografias dedicadas a Alberto Maranhão, outro filho ilustre de Macaíba, e que governou o Rio Grande do Norte na chamada República Velha, entre os anos de 1900 e 1904, e executor da construção do Teatro Carlos Gomes, que hoje porta o seu nome. Uma das fotos em que aparece de corpo inteiro, mostra um homem elegante e preocupado em preservar para a posteridade a imagem de estadista que soube administrar, sem poupar esforços em favor não só dos interesses oligárquicos de sua famílias, mas também da educação e da cultura, como provam a fundação do Conservatório de Música, a inauguração da Escola Normal de Natal, a aprovação de uma lei de incentivo à edição de livros, entre outras. Por isso, mereceu a alcunha de “mecenas da cultura”.

Uma fotografia do ex-presidente Getúlio Vargas ocupa um pequeno espaço da sala Alberto Maranhão, tendo ao lado cópia da carta-testamento escrita pelo político gaúcho momentos antes de seu suicídio, em 24 de agosto de 1954. A homenagem a Getúlio se deve ao fato de ele ter estado no solar Caxangá no ano de 1933, três anos antes da promulgação do Estado Novo no país. Outro ilustre visitante dessa velha morada senhorial foi o capitão José da Penha, quando visitou Macaíba para realizar um inflamado comício contra a oligarquia Albuquerque Maranhão. Quem o recepcionou foi o major Antônio de Andrade Lima, sobrinho de dona Apolônia Viana (1862-1911), esposa do coronel Afonso Saraiva, para quem passara a posse da propriedade no ano de 1900. Outros visitantes de renome foram Café Filho, Tavares de Lira, Auta de Souza, Augusto Severo, Henrique Castriciano e membros da Família Imperial que, no ano de 1927, estiveram em visita ao Rio Grande do Norte. À frente da comitiva real, o príncipe D. Pedro de Orleans e Bragança, filho da princesa Isabel, teria assim comentado as impressões que lhe deixaram a visita: “Passar uma tarde sob o refúgio das árvores do Solar Caxangá, melhor coisa não há”.

Nos demais cômodos da velha mansão senhorial podem ser vista uma miscelânea de objetos de diversas épocas da história macaibense: daguerreótipos, projetor do Cine Juvenal Lamartine, primeiro cinema de Macaíba, com data de 1930; aparelho telefônico datado de 1900, trabalhos do fotógrafo José Muniz, pioneiro da fotografia em Macaíba, imagens de santos esculpidas em madeira, relicários, móveis de época etc.

Mas quem visita hoje o solar Caxangá está visualizando apenas a ponta do iceberg do nosso acervo, porque adquirimos semanalmente, seja por compra seja mediante doação, variadas peças que deverão se somar às demais em exposição. Dentre estas, a mais rara é seguramente uma batina que Frei Damião vestiu durante uma visita a Macaíba. Falta definir, porém, o local, porque reconhecemos que uma relíquia dessa ordem tem um valor material inestimável, acrescido ao seu significado religioso. Também encontramos peças sacras e mobílias pertencentes a Dom. Joaquim de Almeida, primeiro bispo de Natal e resignatario de Macaíba, e também considerado Santo pelo povo; ainda Monsenhor José Paulino, abolicionista e republicano como também Cônego Estevão Dantas, Monsenhor José Paulino Duarte da Silva e Cônego João Evangelista da Silva Castro, primeiro padre nascido em Macaíba.

Enfim, não custa lembrar que o solar Caxangá é hoje um dos pontos de encontro de intelectuais, artistas e público em geral, em virtude de ser constantemente utilizado para eventos como lançamentos de livros, vernissages de artistas, palestras e mesas-redondas. Assim, embora seja uma casa da memória, com suas relíquias diversas, o Caxangá também se abre para o futuro na medida em que patrocina eventos contemporâneos a que não faltam os mais variados públicos, especialmente, jovens. Habitualmente, porém, o espaço livre desse solar é frequentado por pessoas da terceira idade que ali buscam um lugar agradável onde possam passar horas de lazer conversando, passeando, gozando da brisa que sopra suave por entre seus muros centenários e recordando fatos da história do município que ali transcorreram.

A partir de 12 de maio de 2002, o Solar Caxangá passou a sediar o Instituto Pró-Memória de Macaíba, cuja finalidade principal é resgatar e preservar os bens culturais desse município. Nesse mesmo ano, o solar foi tombado pelo decreto lei 16.218/2002 como Patrimônio Histórico do Estado e reconhecido de utilidade pública estadual pela lei 8231 de 12 de setembro de 2002.

Solar Caxangá, casa da memória macaibense
 
 Natal/RN - Brasil,