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Ticiano Duarte

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Ivan Maciel de Andrade
Advogado

 

Você se mudou não apenas para longe de nós, mas para um lugar, feito de silêncios e mistérios, em que nossas palavras, nossos afetos, nossos gestos de saudade e despedida, não o alcançam mais. No entanto, que vontade obsessiva, pungente, inestancável de ouvir a sua voz, de ouvi-lo contar as histórias – sobre a política nacional e a do nosso Estado – que às vezes nem só você conhecia, mas somente você sabia contar. Nessas ocasiões, nos transformávamos em absortos e hipnotizados ouvintes, navegantes sem rumo à mercê de suas palavras, de suas expressões faciais, da sua teatral fabulação, do ouro do mais puro quilate verbal que você, com sua alquimia de “causeur”, extraía da ganga escura e espúria dos episódios políticos. Estávamos sempre, viciados à espera da próxima dose, na expectativa de novas histórias, das hilárias ou excêntricas peripécias que formam o anedotário sobre nossos costumes políticos, estaduais e nacionais.

Havia mais, entretanto. Você era um finíssimo, agudo observador e analista dos acontecimentos políticos. Sabia destrinchá-los com a perícia de um consciente e consciencioso dissecador da anatomia dos fatos e da fisiologia (ou do fisiologismo) dos protagonistas políticos. Eram sensibilidade, inteligência, percepção que o conduziam à observação e análise dos fenômenos políticos. Mas era também o amor às causas públicas, o engajamento nas lutas em favor da democracia, da liberdade de expressão, da legitimidade da representação popular, da restauração ética a que terão de ser submetidas eficazmente as instituições brasileiras. Além do mais, você sempre perfilhava os interesses das classes mais humildes, dos excluídos e marginalizados, por espírito de justiça e em decorrência de sua formação humanística, constituída por uma concepção ideológica de vanguarda, utópica, porém bela e por sentimentos de identificação com as vítimas das asquerosas desigualdades sociais e econômicas.


Todos nós sabemos que o seu principal ofício – que exercia com inexcedível habilidade e permanente denodo – era o da amizade. Ninguém que eu conheça foi tão fiel e generoso na observância dos ritos, vínculos e expressões desse ofício, que é essencialmente espontâneo e que tem em si próprio a sua mais valiosa recompensa. Não esquecia nem abandonava os amigos – mais do que por um dever, por um compromisso consigo mesmo – por mais ingratas e adversas que fossem as circunstâncias, como demonstrou em momentos difíceis e situações desafiadoras, ao longo de sua vida.

Herdei de meu pai – Dario, irmão de Sofia, sua mãe – a enorme afeição (a esta altura, molhada de pranto e saudade) e a não menor admiração por você, por seus méritos, por seu valor, por suas incomuns, raras qualidades morais e intelectuais.  Você foi uma pessoa com que contei, em diversas fases de minha vida, como se conta com um irmão mais velho, um bom, querido e insubstituível irmão mais velho.

Nessa penúltima quarta-feira – 5 de agosto – conversamos longamente por telefone e marcamos um almoço para a semana seguinte, a fim de prosseguirmos conversando. Não enxergo explicações convincentes para essa, aparentemente, estúpida ruptura, que põe um surpreendente, desconcertante ponto final em tudo. Mas algo me conforta: sua morte foi uma cessação rápida, instantânea do impulso responsável pela preservação do milagre da vida. Cumpriu-se a fatalidade de nossa finitude, mas sem o constrangedor e progressivo embotamento de suas aptidões físicas e mentais. É um pobre conforto, reconheço, mas é o único que nos resta. Corrijo-me, não é o único, pois a presença de sua memória é tão forte, tão intensa, tão vívida, que, através dela, você sobrevive à morte.

 

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