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Literatura

Em memória de Otacílio Alecrim

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Em memória de Otacílio Alecrim“

Tribuna do Norte” 26-8-84

                         A 12 de agosto corrente, Ivan Maciel de Andrade evocava, neste Caderno, a figura humana e intelectual de Otacílio Alecrim. Seu excelente artigo fez reviverem, naturalmente, emoções antigas em quantos foram admiradores e amigos do autor de “Província Submersa”, “Ensaios de literatura e filosofia”, um “Proust”, romancista do impressionismo, anunciado, mas ignoro se publicado, além de outros trabalhos – e considerado no justo conceito de Ivan, como “o melhor ensaísta literário nascido neste Estado”. Guardo algumas vivencias e lembranças daquele companheiro tão cedo desaparecido, e é delas que pretendo me ocupar um pouco aqui.
                         Data dos idos de 1930, meu conhecimento pessoal com Otacílio Alecrim entre Macaíba, onde ele passava algum tempo com pessoas da família, creio que em férias acadêmicas, e o velho Engenho do Ferreiro Torto, onde eu me encontrava também, numa pequena vilegiatura de fim de curso do Ateneu, se estabelecera, então, (e mais a diante se soubera o porque) uma intensa rede de comunicações literárias, no que me dizia respeito. Sua influência intelectual, de quem mais lera, mais aprendera, mais sabia, mais formara uma experiência própria, muito me marcou o espírito. Tive revelações extraordinárias de um mundo que já começara a amar, o mundo dito das letras, mas, apesar dos livros e autores de superior envergadura, de que tratávamos, muito mais ele do que eu, o que mais de imediato me vem agora, a memória, é um romance de um autor menor, então vem voga, o italiano Guido de Lverona. O romance intitulava-se “A vida começa amanhã” – e foi, certamente, por esse titulo que pode sugerir tantas coisas, esperanças, obstinações, superações, (mas de cujo conteúdo nada sei mais), que não o esqueci.
                         Reencontrei, Otacílio, pouco depois, na Faculdade de Direito do Recife (a esse tempo, publicara um panfleto político “Tamatização”, a “a margem da ideologia revolucionária”, com implicações em certos setores potiguares), onde se havia tornado um líder, um “meneur” de colegas de estudo e geração. No vértice do movimento de renovação intelectual que então empolgava de debates e rumores as salas de aulas e os pátios da escola (influência, talvez, da revolução que abalara o país) e que se objetivavam principalmente na revista “Agitação”, seu nome, colocava-se como uma legenda. Sucedeu que, in illo tempore, saíra, no rio, o livro “Maquiavel e o Brasil”, de Otávio de Faria. Num dos números, daquela revista, Otacílio Alecrim contestava, em admirável estudo crítico algumas teses do ensaísta posterior de “O destino do socialismo” e do romancista da “Tragédia Burguesa”.
                         A obra de Otávio de Faria desencadeara paixões, impondo de um dia para o outro o nome de um moço de vinte anos nos quadros do pensamento político do Brasil.
                         Não sei de outra obra que houvesse tanto repercutido no ambiente acadêmico de meu tempo, a não ser muito menor escala, possivelmente por ser livro circulando em idioma estrangeiro e de limitada difusão o “Um nouveau Moyen Age”, de Berdiaev. Colegas que aquela época, seguiam linhas mais acentuadas cristãs devem bem lembrar-se desses detalhes.
                         Do Otacílio Alecrim, desse tempo, diria o eminente professor Anibal Freire da Fonseca que enchia “os fastos da Faculdade com a opulência do pensamento amadurecido na contemplação dos problemas universais”. Mas a medida melhor de seu talento seria exatamente o discurso de orador da sua turma, em 1933, que foi, inclusive, transcrito nos Anais da Constituinte Federal de 1934. O professor Anibal Freire da Fonseca, acima mencionado, e cuja cátedra se transfigura num dos mais belos espetáculos da cultura universitária brasileira era o paraninfo. Teve, então, ressonância particular a saudação de Otacílio ao mestre incomparável, quando lhe fixou a posição privilegiada por Parlamento Nacional e no magistério superior, no primeiro movendo-se com a allure um estadista britânico, e no segundo, com o fascínio numeroso de um Victor Cousin. Palavras finais do discurso de Otacílio: “Já estamos em silêncio, mestre. Chegou à hora de vossa oração sobre a Acrópole”. Essa oração se denominaria “Renovação e ordem no panorama do Mundo”.
                         A metrópole atrairia, a seguir, Otacílio Alecrim. O direito e a literatura continuavam, porém, a disputar-lhe as indagações inquietas e criadoras do espírito e da sensibilidade. Os ensaios jurídicos como os ensaios literários, de que da testemunho o seu livro “Ensaios de literatura e filosofia”. As vezes tocados de nuanças políticas como a mensagem transmitida, de viva voz, aos escritores de Minas Gerais – mensagem que abordava de um problema que, desde o lançamento do famoso livro de Julien Benda, “La trahison dês cleres” passou a constituir uma apaixonante controvérsia universal de intelectuais, ainda hoje atuante, qual seja o do “engajamento” ou da sua não participação no drama da vida publica, da sua mobilização ou do seu alheiamento da arena político-social, denunciam, por igual, o estilo, o vigor e a graça de um humanista, nos métodos de estudo, nos processos de manifestação, no conteúdo dos trabalhos.
                         “Teoria dos Ministérios Jurídicos” (tese de Direito Administrativo para o antigo Instituto Brasileiro de Direito Administrativo, Rio, 1947).
                         “Técnica, Princípios e Códigos” (Conferências, Estudos e Comunicações) Estudos de Direito Estrangeiro e de Direito Comparado, Rio, 1952.
                         “Idéias e Instituições do Império” (Estudo comparativo das influências francesas), Rio, 1953.
                         “As comissões Congressuais de Investigação no Regime Presidencialista” (Métodos e objetivos nos E.E.U.U. e no Brasil), Rio, 1953 (Contribuição para um volume especial da “Revista Forense”)
                         “O Sistema de veto nos E.E.U.U.” (Estudo comparativo das influências americanas no Brasil, (1890-1953), Rio, 1954.
                         Instituições de que fez parte: “Instituto de Direito Comparado da Universidade Nacional de Cordoba” (Argentina), “Instituto de Direito Comparado da Universidade Nacional Autônoma” (México), ”Sociedade de Legislação Comparada” (França), “Academia de Ciência Política da Universidade de Colúmbia” (E.E.U.U.), “Associação Internacional de Ciência Política” (UNESCO) e “Diretor do Instituto de Estudos Políticos” (Brasil).
                         Convidado, fez conferências jurídicas no Chile e na Argentina e sobre Marcel Proust, num Congresso do Pen-Club da França, em Paris, 1984.
                         Aos poucos, no entanto, inexplicavelmente, começaram a rarear as noticias a seu respeito. Sabia-se do exercício numa procuradoria administrativa. Sua ausência do clima em que sempre vivera explicaria um recolhimento à vida privada? Cansaço, desencanto, doença? Enfim, a morte como uma chama que se apaga em silêncio, conhecida quase ao acaso, provocando, entretanto, em todos os amigos, um a um, a sensação inconformada, qualquer coisa incompleta, de que ele não teria dado tudo quanto prometia e podia. “O que podia ter sido e que não foi”, do poema triste de Manuel Bandeira.
                         Há, porém, um episódio da vida de Otacílio Alecrim, um pequeno episódio sentimental, que deixei justamente para o fecho destas notas avulsas, para usar uma expressão tão cara ao mestre Nilo Pereira, seu velho amigo. Foi a sua vinda a Natal, em 1949, para conferências na Ordem dos Advogados, no Tribunal de Justiça e na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. Na Ordem e no Tribunal, Otacílio falou de problemas jurídicos e judiciários. Na Academia, todavia, tivemos o escritor, na sua condição de proustiano histórico, membro do “Prout-Club” da França e fundador do “Proust-Club” do Brasil.
                         Coube-me a honra e a alegria de saudá-lo, em nome da Academia, naquela oportunidade que imagino tenho sido a única, aqui em Natal, em que um conferencista se ocupava e especificamente do fenômeno que Proust representa na literatura universal, o Proust sobretudo de suas relações com a província e sua infância, juventude e mocidade. Temia eu, a certo momento, uma aproximação no território intimo e sagrado da memória do conferencista, em sua confrontação com um tema de Proust. Mas arrisquei, afinal: “Sô em vós mesmo estará a possibilidade de experimentar as conseqüências desse contacto misterioso e inefável com o tempo, as coisas; a atmosfera e a existência perdidos, muitos, talvez, naquele instante não reencontrados – porque somente em vosso paladar poderia ter um sabor típico, símbolo proustiano por excelência certo pedaço de madalena embebido em determinada taxa de chá...”
                         Tempos depois, ao fazer referências, em “Província Submersa”, aquela parte do discurso, ele aporia em nota de pé da página: “Recebendo-me na Academia, o A. evocou, então, com reticências, certa passagem de minha juventude romântica na casa-grande do antigo Engenho do Ferreiro-Torto, arredor de Macaíba, onde, à tardinha, a sua madrinha costumava servir-nos chá com deliciosos biscoitos de araruta, na companhia de sua neta – a minha proustiana Gilberta de então. Nossos passeios tinha também o seu lado de Meségelise, a sua cerca de lilazes e o seu caminho em rampa marginado de pilriteiros em flor – admiráveis trechos de arte descritiva de Proust e inspirados na famosa tela impressionista de Renoir Chemin motant dans lês herbes, 1874, pertencente ao Museu do Luvre”.

Escrito pelo Dr. Américo de Oliveira Costa
Publicado na Tribuna do Norte

Última atualização ( Qua, 25 de Agosto de 2010 16:08 )
 

Provincia Submersa - Octacilio alecrim

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Carlos Lyra

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        Quando Diógenes da Cunha Lima foi escolhido reitor da Universidade, foi a mim, em seu gabinete, um dia ou dois depois de sua posse, que ele convidou para ser o diretor geral da TV Universitária. E sua surpresa foi constatar a consciência pessoal do meu próprio  despreparo para exercer cargos públicos. Mas, disse a ele que um amigo comum seria o nome ideal: Carlos Lyra. Ele parou alguns segundos, e concordou sem precisar de mais nenhuma explicação, dizendo que eu tinha razão, e que Carlinhos era mesmo o melhor nome para o lugar.

        O tempo revelou que estávamos certos. Carlos Lyra não só implantou os equipamentos de TV colorida que já estavam a caminho, uma conquista iniciada na gestão Arnon Andrade, como ampliou. E projetou a TV-U muito bem, nas áreas de educação e jornalismo, registrando depoimentos de personagens da história da cidade com o Memória Viva. Indicado Genival Barros, luta da qual participei com algumas idéias, fiz tudo para manter Carlinhos no cargo. Fomos derrotados. Nada mais pedi durante os quatro anos. Nem um figo podre.

Última atualização ( Seg, 02 de Agosto de 2010 16:57 ) Leia mais...
 

A lua azul

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 Vicente Serejo

                    E no entanto, só por que é rara, a lua azul nem veio aparecer por aqui, no céu humilde desta ilha sem tesouros. E se viesse, mesmo assim, e como quem não quer nada, a lua azul não ganharia poemas por que todos os poetas da ilha já partiram. Primeiro foi Berilo Wanderley que um dia desarmou a sua rede entre cajueiros , e partiu num adeus de nuvens. Depois, foi Newton Navarro, entre luminosas volutas de abacaxi, navegando os morros. Por fim, Luís Carlos Guimarães com seu riso manso, de passarinho.

 

                    Se a poetisa Diva Cunha ainda morasse aqui repetiria seu poema da tarde para essa lua que só chegaria, se viesse, depois das três. Mas Diva foi morar em Barcelona. Ninguém ficou para as nossas últimas quimeras, e por isso não há quem receba, no alpendre, a lua azul. Além de toda essa pobreza que restou, não caberia a mim, neste pobre ofício de cronista, receber a lua. É verdade que o mar me alcança com seu verde, da praia que vai azulando até o azul do mar oceânico. É muito, muito para um cronista.
Última atualização ( Qui, 05 de Agosto de 2010 15:44 ) Leia mais...
 

100 anos de Esmeraldo Siqueira, um intelectual polêmico e contestador!

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O conselho Estadual de Cultura comemora hoje, às 17h, na Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANL), o centenário de nascimento do médico, professor, escritor, poeta e ensaísta, Esmeraldo Homem de Siqueira. O escritor, historiador e professor da Universidade de São Paulo (USP), o potiguar Marcos Silva e o escritor Nelson Patriota serão os palestrantes que falarão para um público seleto de intelectuais e amantes das letras que sempre nortearam a vida do homenageado.

Imortal da ANI, onde ingressou em 1949, ocupando a cadeira nº29, cujo patrono é Armando Seabra, Esmeraldo Siqueira, de acordo com as palavras de Veríssimo de Melo, sempre foi “a expressão mais alta da vida literária e científica”. O seu filho, o intelectual Juliano Siqueira, assim o descreve: “Esmeraldo escreveu seus poemas de acordo com o seu credo literário: romântico, parnasiano, simbolista, moderno. Um humanista”. Esmeraldo usava os pseudônimos: André Maroni e Pedro Malazartes. A biblioteca pública da Capitania das Artes tem o seu nome, bem como uma rua no bairro de Pitimbu, em Natal.

Esmeraldo Homem de Siqueira nasceu em Vila Nova, hoje Pedra Velha, filho do juiz Joaquim de Siqueira Cavalcanti e de D. Maria Joaquina de Siqueira Cavalcanti. Transferiu-se com seus pais para Natal em 1913, iniciando no mesmo ano seus estudos primários no Grupo Escolar Augusto Severo. Depois, no Colégio Santo Antonio e no Atheneu Norte-rio-grandense. Em 1928 matriculou-se na faculdade de medicina do Recife, onde colou grau na turma de 1933. Começou a exercer a profissão em Jardim do Seridó. De lá, nas horas vagas, escrevia e mandava para “A República” os seus “Intentos”, série de Artigos sobre literatura e filosofia.

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