Estafante ano velho, feliz ano novo

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A política no estado dava sinais de largada em clima emocional. Em Natal, o tabuleiro estava posto e os nomes dançavam conforme os acertos e desacertos. Aluízio Alves, em praça pública, bramia e fazia o povão chorar. Corriam os anos sessenta. O então ex-senador Carlos Alberto de Souza, “chorava no mesmo tom e som”, segundo o velho Antonio Avelino. Do lado oposto, o deputado Carvalho Neto ia além e censurava: “Temos artistas e palhaços pra todos os gostos!”, discursava sempre em linguagem depreciativa contra os seus adversários. “Meus amigos, eu sou Carvalho Neto! Venho do alto sertão e não trago choro! Trago propostas! De onde eu venho homem não chora! Quando muito, faz uma careta, quando acontece de imprensar “os coquinhos” (bolsa escrotal) no cabeçote de uma cangalha! Agora, nas escadas em busca do poder é diferente. Encontramos somente lágrimas de crocodilos!”. Carvalho não sabia contracenar o choro com o decoro.

02) Ainda sobre a política essa me chegou de Mossoró. Na corrida rumo à câmara municipal, encontravam-se as mais variadas figuras. Todos eleitos por antecipação. O tempo de discursar era cronometrado, mas quase sempre extrapolado. Laire Rosado, deputado e carro chefe da campanha ria a valer com os causos e acontecidos do palanque local. Certa noite, o candidato a vereador Altivo Paiva, cuja oratória era falar dez palavras e errar onze, estava discursando. Toinho Rockfeller, já vereador, rumo ao segundo mandato, conversava com Laire. “Deputado, tome o microfone desse homem. Já está falando besteira demais”. Laire, gozador por demais, sugeriu: “Use a “chave n° 2”, que ele para”. Altivo, o orador, pronunciava-se assim: “Vou mandar “butar” poste e luz nessa rua”, quando rápido Rockfeller enfiou-lhe o dedão certeiro nos quartos do orador, que, sem perder o ritmo, gritou: “Hei, no meu “asterisco” eu não aguento nada”. A plebe rude não entendeu, mas aplaudiu Altivo, por omitir o nome popular das nádegas. Ato contínuo, entregou o microfone ao locutor oficial.

03) Na Assembleia Legislativa, os debates, bate-rebates estavam a mil por hora. Um deputado seridoense, brabo feito cobra choca, enfatizava: “Meu pai nesta casa, lembrava sempre o governador Dinarte Mariz, sobre uma frase que lhe foi atribuída: “Todo homem tem seu preço e eu sei o preço de cada um...!”. Aí, o deputado José Dias interrompeu o orador jogando mais duro que “zagueiro de espera” e rebateu: “Dinarte dizia isso porque naquele tempo, se tratava de cruzeiro. Hoje é euro, é dólar, é foliaduto, é via ápia, é ouro negro, sinal fechado...! Não dá pra se calcular o preço de ninguém! Obrigado por me ceder o aparte, nobre deputado”. O outro parlamentar da tribuna, apanhado de surpresa, por ter sido sustado o seu raciocínio, apenas acrescentou: “Mas eu nem cedi o tal aparte?! Mesmo assim, eu aceito. Vamos falar agora de Copa do Mundo, aeroporto, energia eólica, PAC e por ai vai... Tem mais futuro...!”.

04) Nos anos 50, Natal ainda respirava coisas da segunda guerra mundial. Nas ruas transitavam turcos, judeus, dentre outras raças que conseguiram fugir de Hitler. Aqui, “os galegos” em sua maioria, vendiam retalhos de tecidos vários, entre outras bugigangas. Eram os mascates. Nesse meio, estava um alemão/austríaco, Hans Düller, que se esforçava para falar o nosso idioma, porém o “R” arrastado era sempre um castigo. A rapaziada fazia roda em volta do germânico, querendo ouvir suas estórias. Os homens chamavam-no de “pai Joca”. Ele não ligava. Perguntado sobre o excesso de patriotismo dos soldados alemães, Ele respondeu com sotaque: “Cosa de loco! Ninguém morré porra amor”. Naquele tempo, porra era palavrão. Hans Düller, por outro lado, ganhou das mulheres natalenses o apelido de “velho imoral”.

05) O então vereador Rafael Nagildo, ali de São Gonçalo do Amarante, político por necessidade, agricultor por natureza, adorava o recesso legislativo. “Só assim”, repetia sempre, “vou cuidar melhor da minha granja”. Aproximava-se dezembro e o velho Rafa comentava do alto da tribuna para os seus pares: “Vamos votar tudo que tiver hoje. Tô doido para “serrar os trabalhos”, e “enzebrar o ano”. Inspirado em Nagildo: um feliz 2012 pata rodos os nossos leitores.

 

Valério Mesquita - Escritor