A lua azul

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 Vicente Serejo

                    E no entanto, só por que é rara, a lua azul nem veio aparecer por aqui, no céu humilde desta ilha sem tesouros. E se viesse, mesmo assim, e como quem não quer nada, a lua azul não ganharia poemas por que todos os poetas da ilha já partiram. Primeiro foi Berilo Wanderley que um dia desarmou a sua rede entre cajueiros , e partiu num adeus de nuvens. Depois, foi Newton Navarro, entre luminosas volutas de abacaxi, navegando os morros. Por fim, Luís Carlos Guimarães com seu riso manso, de passarinho.

 

                    Se a poetisa Diva Cunha ainda morasse aqui repetiria seu poema da tarde para essa lua que só chegaria, se viesse, depois das três. Mas Diva foi morar em Barcelona. Ninguém ficou para as nossas últimas quimeras, e por isso não há quem receba, no alpendre, a lua azul. Além de toda essa pobreza que restou, não caberia a mim, neste pobre ofício de cronista, receber a lua. É verdade que o mar me alcança com seu verde, da praia que vai azulando até o azul do mar oceânico. É muito, muito para um cronista.

                    E no entanto, essa lua azul – tão rara meu Deus!  - Vai chegar, com todo seu fulgor, depois das três. A lua da tarde do poeta Sanderson Negreiros, aquela que vem para encontrar o planeta Vênus. Menino, o planeta era apenas uma estrela, a Estrela Dalva. A mesma que no sertão se chama, tão prosaicamente, de Papa Ceia. E agora, como é a segunda lua de agosto, dizem que ela é azul, mas a gente sabe que tudo isso é pura esnobação dessa aparição rara. A lua azul é amarela, e no entanto vem só para azular a tarde.

                    A ilha é pobre, eu reconheço. Mas seria de gosto vê-la no céu desta tarde humilde. Pode até ser que não venha, sensual e luminosa, cair nesses alpendres cheios de silêncio. A lua daqui sempre foi muito tímida. Há noites de um fulgor mais intenso, mas na maioria das noites vem muito discreta dos lados do mar. Depois vai subindo, subindo, passa os cabelos negros e cheios de ventos desses ciprestes antigos, e vai. E fica ali, bem alto, esperando o dia nascer sobre o casario, na sua hora de esplendor.

                    Há mais de um século vive aqui um povo humilde. Do pequeno arruado de casinhas de palha até hoje, ainda se houve, certas noites, o violão de Heronides França a tocar modinhas. Dizem que algumas madrugadas são tão calmas que até se pode ouvir a gargalhada sonora de Barôncio Guerra recebendo Mário Andrade e Câmara Cascudo para um cozido de peixe com pirão. José Aguinaldo parece que anda por essas ruas, quando a noite vem, só para ouvir Berilo Wanderley cantar Serra de Boa Esperança.

                    A ilha é pobre, eu sei, mas o povo é bom e hospitaleiro. Há por aqui as almas dos poetas antigos, aqueles de inspirações magistrais. E quem sabe eles estão reunidos, chamados por Henrique Castriciano que descansava seu corpo pesado neste mar de ventos. E num milagre de transcedência vão cantar a lua azul que hoje à tarde virá mais bela do que nunca. Coragem! Direi aos poetas da ilha. Juntos expulsaremos a dor e o medo. A lua azul é de julho, mas vem só para anunciar o grande luar de agosto.

Última atualização ( Qui, 05 de Agosto de 2010 15:44 )