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Odete e Luiz, uma história que a repressão não apagou

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Do triste e vergonhoso capítulo da História do Brasil, escrito com sangue dos torturados pelos agentes do regime militar, uma estória de amor, a ditadura não conseguiu apagar. Personagem viva dessa página de ternura, Odete Roselli Maranhão, hoje [07.11.1993] com mais de 70 anos de idade, abre o seu coração e revela os anos de convivência com o marido, o líder comunista Luíz Inácio Maranhão Filho, morto em 1974, numa casa de torturas mantida pelo Exército, em Itapevi, no município da grande São Paulo, sem que o óbito nunca fosse comunicado à família. Ela relata a sua grande agonia durante  a peregrinação feita por Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, circulando nas ante-salas dos generais, nos gabinetes dos delegados e dos políticos, nas prisões e nos hospícios, na busca desesperada por uma notícia do companheiro.

Somente em novembro do ano passado, com a publicação da entrevista concedida à revista Veja por Marival Chaves, ex-sargento do DOI-CODI, Odete teve a confirmação do seu verdadeiro estado civil. Luiz tinha sido torturado e morto com uma injeção para matar cavalos e o seu corpo atirado de uma das pontes da estrada SP 255, nas imediações de Avaré, à 250 km de São Paulo, onde segundo Marival, existe um cemitério aquático.

Sentindo-se doente, como o corpo trêmulo e o olhar distante, apesar de se dizer esquecida, Odete relembra, muitas vezes com detalhes, a vida com o marido. Foram apenas nove anos de convivência em Natal. Eles moravam no Edifício São Miguel, talvez o primeiro prédio de apartamentos da cidade. Situado na Avenida Rio Branco, no edifício, também funcionavam o consultório odontológico de Odete e o consultório médico da sua irmã Aliete Roselli, falecida há seis anos.

Depois dos nove primeiros anos de casamento, sempre intercalados de sobressaltos, porque o Partido Comunista estava na ilegalidade, seguiram-se dez anos de encontros clandestinos. Como Luiz, após ser solto em 1964, teve que deixar Natal, Odete, periodicamente, viajava para o Rio de Janeiro ou para São Paulo para visitar o marido, que sempre a esperava com ansiedade. Um dia, ela retornou ao Rio, levando uma pequena maleta com roupas novas para o bem amado, um homem sem vaidade, conforme afirma, mas nunca mais o encontrou. Ao contrário da maioria dos contos romanceados, a história de Odete e Luiz não teve um final feliz.

UM AMOR ALÉM DA VIDA
Mesmo sem happy end, o amor de Odete permanece além da vida, como se ela quisesse provar a vitória do bem sobre o mal; o bem que começou há 38 anos e que ela relembra com tanta saudade.

A noite era de festa. O ano de 1955. Apesar do frio de junho sentido lá fora, a sala de visitas era acolhedora e os convidados, como nas páginas de romances, puderam testemunhar o início de sua linda história de amor, cheia de ternuras e desencontros. Era o aniversário do pai de sua amiga Carmem, o professor Celestino Pimentel, diretor do Colégio Estadual do Atheneu. Foi aí que Odete, pela primeira vez, se encontrou com Luiz, o míope professor do Atheneu, o jornalista do Diário de Natal e, antes de tudo, o líder comunista. Do seu currículo, já constava uma prisão com várias sessões de tortura, 1952, durante a perseguição aos comunistas, quando lhe enfiaram um besouro vivo pela garganta. Muito debilitado, logo que foi solto, Luiz foi mandado pelo comitê do partido para Moscou, afim de se tratar e de repousar num balneário no Mar Negro.

Essas histórias contadas pela futura cunhada Natércia, enchiam Odete de temor. Ela então se Lembrava da observação da amiga Carmem Pimentel que dizia: “Luiz estava no América com três brotinhos e quando me viu, veio falar comigo”. Estava comprovado o amor à primeira vista.

“Parece que eu tinha sido atingida por uma corrente elétrica”. Não havia necessidade, portanto, de perda de tempo e, por isto, os dois se casaram três meses mais tarde. “Só não nos casamos duas semanas depois, por que eu não tive coragem de falar logo com  o meu pai e também por que o pároco, cônego Luiz Wanderley estava viajando”.

Apesar do namorado comunista, Odete não teve dificuldade de convencer o pai sobre o seu casamento. “É, minha filha, se é ele que você quer”. Afinal de contas Luiz era um comunista diferente. Tomava bênção à mãe, dona Salomé, uma parteira viúva, conhecida pela sua bondade e pela educação que dava aos filhos, e era amigo de muitos católicos, sendo conhecido como ecumênico.

Com o seu vestido  branco de noiva e tendo à cabeça uma mantilha trazida da Espanha pela irmã, Odete, já na época dentista formada pela Universidade da Bahia, sobe ao altar no dia 10 de fevereiro de 1956, num dia de Carnaval, sem saber que iniciava ali um longo calvário.

Ex-aluna do grupo escolar Augusto Severo e do Colégio Atheneu, fez o pedagógico na Escola Normal de Natal. Tinha estudado francês, chegando a ensinar na Aliança Francesa. Pode-se dizer que Odete Roselli era na época o que se costumava dizer: “Nascida de uma família tradicional”.

As irmãs Roselli tiveram uma severa educação e eram muito recatadas. O pai sempre dizia: “Não existe homem digno de minhas filhas”. Mas Luiz foi. Quis o destino que ele escapasse de diversos noivados e casamentos e até da paixão de uma poetisa que o conheceu em 1952 na prisão de Recife. A cunhada Natécia sempre contava que a tal moça tinha vindo à Natal procurar o irmão, mas que “ele não teve simpatia por ela”.

Envolvido no seu ideal, Luiz Maranhão nunca se preocupou com a vida material. Ele não tinha a menor vaidade. “Para ele tanto fazia vestir uma roupa de linho, como do mais barato tecido. Mas eu sempre tinha muito cuidado com ele. A minha irmã caprichava na reforma dos seus ternos”, afirma a saudosa Odete, lembrando que o “marido tinha muito cuidado com os pés e que por isto sempre levava com ele, uma lata de graxa e uma escova (que ela guarda até hoje) para engraxar os sapatos.

O que Luiz ganhava como professor e jornalista não dava para cobrir as despesas da casa, que ficavam sempre por conta de Odete.

“Luiz era capaz de entregar o seu salário ao primeiro pobre que viesse procurá-lo. Ele sempre defendeu um mundo melhor e dizia ter certeza que haveria de chegar o tempo em que as pessoas não iam passar privações e deixariam de existir as desigualdades. Ele morreu acreditando nisso. Ele era um homem puro”.

“Talvez por isso”, diz Odete “eu tinha sido e continue sendo apaixonada por ele. Eu vivi um amor privilegiado e essa consciência me levou a fazer por ele o que me foi possível. É esse amor que ainda me mantém de pé”, concluiu com a voz embargada.
“Apesar da vida atribulada de Luiz, o amor que ele me deu foi tudo que uma mulher pode desejar na vida. Foi muito acima do que eu merecia. Nós vivemos um amor intenso. Depois que casei renunciei à vida social. Eu preferia que ele aproveitasse as poucas horas de folga para repousar”.

O casamento não afastou Luiz Maranhão do seu compromisso com o partido, nem Odete da sua religião. O respeito mútuo presente entre o casal permitiu sempre a convivência pacífica entre as suas crenças. A decisão tinha sido selada através de juramento feito antes dos dois subirem ao altar. “Eu tinha certeza de que uma causa que Luiz abraçasse só poderia ser justa, plena e absoluta”.

No apartamento do casal, as reuniões com os amigos de Luiz para as discussões políticas iam até as madrugadas, mas a boa Odete nunca quis participar dos debates. Procurava assim, se defender dos seus pressentimentos. A sua atuação limitava-se a servir cafezinhos aos visitantes, e jamais se cansou de apoiar o marido, “por que o seu ideal era tudo para ele”.

“Luiz fazia de tudo para me agradar e para não criar transtornos e trabalho. Lembro-me que ele combatia o fumo, mas como os amigos insistiam no vício, ele colocava na sala, tampas secas de latas de doce para o depósito das cinzas”. “Somente assim”, dizia ele, “você não vai lavar os cinzeiros, depois”.

O casal jamais pôde contar com empregados domésticos, que poderiam, um dia, ser obrigados a testemunhar contra os planos discutidos nas permanentes reuniões. Por isto, Luiz sempre ajudou nos afazeres domésticos.
Odete, que ao casar esqueceu-se de comprar os pratos, só se dando conta na hora que precisou usá-los, diz que era muito desajeitada na cozinha e que o marido lhe ajudava em tudo, embora, também fosse desajeitado.
“Ele elogiava tudo o que eu fazia. Sua bondade era enorme e nunca tive com ele um só dia de aborrecimento”. Ela Lembra como um dos momentos mais felizes de sua vida, uma viagem que fez à Viena. “Assistimos a um Festival da Juventude, - o mais belo espetáculo que já vi em minha vida”.

Luiz era deputado e viajava com os outros parlamentares, entre os quais Vingt Rosado, Moacir Duarte e Aluízio Bezerra. Era ela a única mulher de parlamentar que participava do grupo. De Viena, parte da comitiva foi à Bulgária, Tchecolosváquia e à União Soviética.

Por conta dessa viagem, anos depois Odete teve que prestar depoimento em um inquérito da Universidade, de onde hoje é professora aposentada.

Nas suas recordações sobre a convivência com o marido, Odete lembra, como uma das suas características, o bem que ele queria a crianças. Como nunca tiveram filhos, ele se afeiçoou às suas sobrinhas Amália e Mariane. Luiz orientava as meninas nos estudos, contava-lhes estórias e dava-lhes livros de literatura infantil, de presente. Certo dia, da cadeia, ele recomendou que elas lessem “As Sandálias do Pescador”.

Segundo Odete, se Luiz chegasse a um ambiente onde tivesse crianças, dentro de poucos minutos ele estaria cercado por elas, como se fosse uma outra criança. “Ele adorava o filho da nossa amiga Heloneida Studart (hoje deputada pelo PT do Rio de Janeiro), que nos recebia em sua casa quando íamos ao Rio: Bolãozinho, um menino adorável que ele tinha como filho. Muitas vezes, Aldo Tinoco dizia, brincando, que ia nos dar o seu filho Petrônio e eu dizia que queria também o João, filho de Jessé Cavalcante”.

A DESPEDIDA DE NATAL
Apesar de não participar das discussões do partido, Odete sempre teve maus pressentimentos sobre o destino do marido. A idéia de perdê-lo foi um tormento que a acompanhou durante a vida inteira. Mas Luiz, com o seu bom-humor e a consciência dos justos, procurava convencê-la de que nada de mal iria ocorrer, por que afinal de contas, “nada estava sendo feito de errado”.

Ele não era um homem radical nem violento e preferia não acreditar que a sua defesa em favor de  uma sociedade melhor fosse motivo de perseguições, durante muito tempo. Quando as falsas interpretações fossem esclarecidas, tudo iria ficar bem.

Mas, Odete lia as notícias nos jornais e era alertada pela irmã Aliete, que lhe informava sobre a movimentação militar e no resto do país. “Não se preocupe minha filha, isso é coisa de momento”, tentava o líder comunista acalmar os temores da bem-amada.

Odete recorda que um dia escutou com Luiz, de uma rádio, não sabe se clandestina, um discurso de Brizola (na época deputado federal pelo Rio de Janeiro) e mais uma vez disse para o marido: “Meu filho, eles vêm lhe buscar”. Depois de efetuadas tantas prisões. Luiz toma então uma decisão: “Vou sair por uns dias e não entenda a ninguém, a não ser através de bilhete meu”.

Deixando o seu apartamento, Odete vai para a casa da mãe, onde poderia ficar mais segura, enquanto o marido partia para lugar desconhecido, na esperança de que o seu afastamento seria por poucos dias.
“Fiquei  dois dias sem notícias, quando de repente, recebe um bilhete dele dizendo que estava bem e que eu não me preocupasse, por que no prazo de oito dias tudo aquilo iria passar.

Dias depois, Luiz manda um portador pedir a Odete que guarde o seu relógio de ouro, o que foi interpretado por ela como um mau presságio. Confirmando o seu pressentimento, uma semana mais tarde ela recebe um telefonema do Quartel RO lhe informando que o marido tinha sido preso “apenas para averiguações” e que dali a uma semana, ela poderia visitá-lo . Era abril de 1964.

Escondido em um sítio afastado da cidade, o líder comunista foi preso num dia de manhã cedo. Quando ele abria a porta, com o copo e a escova na mão, para se dirigir a um tanque d’água próximo da casa, pressentiu que ali existia algo diferente; num instante se viu cercado por um grande número de soldados que tinham planejado a sua prisão com um aparato tão grande, que mais parecia tratar-se da captura de um perigoso bandido.

Odete recorda que ainda durante a caça ao marido, o exército foi procurá-la. “Eu vi uns 40 homens invadindo a casa da minha mãe. Tinha soldado por todos os lados, até no quintal e atrás das árvores. Eles foram com o meu cunhado ao meu apartamento e lá arrearam todos os nossos livros das estantes e os levaram em dois ou três carros. Lá, eles perguntaram ao meu cunhado: O senhor tem certeza de que essa senhora não é comunista? Por que, com uma biblioteca dessa...

Mais tarde, decorridos oito dias da prisão, que para Odete mais pareciam oito anos, ela pôde ir ao RO visitar o marido, já trêmulo pelas torturas. “Achei que a saúde dele estava abalada e ele me disse que estava sentindo problemas com a sua labirintite”.

“Coisas muito desagradáveis começamos a saber, sem que ele se queixasse de nada. Certo dia soubemos que ele tinha sido colocado de cabeça para baixo, durante várias vezes num barril cheio de óleo e água. Essa notícia veio do Arcebispo, através da filha de um outro preso. Quando me foi permitido visitá-lo, verifiquei que ele estava muito abatido. Nessa ocasião me entregou uma roupa sua, envolvida em um saco de plástico e me disse que eu à guardasse sem levá-la.

Fiquei assustada e sem querer abrir o pacote, perguntei-lhe o que estava havendo e ele me respondeu: “bobagem minha filha”.

Em outra ocasião, Odete recebeu de um amigo, um exemplar do Códito da Justiça Militar, para que orientasse Luiz na sua defesa através de determinados artigos. No dia seguinte, a sua iniciativa lhe valeu numa advertência do Oficial do Dia: “A senhora se limite às informações do Quartel e não as vindas dessas leis”.
Decididamente, a partir daquela época, os militares não iriam mais dar sossego ao grande líder.
Odete sentiu que a cada dia Luiz definhava mais e decidiu levar o médico Severino Lopes para consultá-lo. Sob a mira das armas, o médico exigiu que os soldados se retirassem em respeito ao paciente e ao atendimento médico, que não podia ser feito sob pressão.

Ainda durante suas peregrinações pelo Quartel, onde ia diariamente levar a alimentação de Luiz (porém só podia vê-lo uma vez por semana), Odete lembra que a sua irmã Aliete Roselli encontrou um médico conhecido e pediu-lhe para fazer uma visita ao cunhado.

Ao retornar da “visita”, o médico disse a Odete que trouxesse 40 comprimidos de aspirina para Luiz, mas que ele estava bem e sem febre, apenas com uma gripe.

“Quando voltei uma hora depois para entregar a aspirina e o almoço, fiquei aguardando que aparecesse um soldado, na esperança de poder mandar um bilhete para Luiz, quando fui informada que ele já não estava mais ali desde a última madrugada. Aí eu fiquei em pânico. O médico tinha me enganado”.

O que fazer diante daquela situação?
Odete não desanima. Sabendo que tem que lutar pelo seu amor, decide ir ao Comandante do RO.
- “Recebi ordem para entregar o seu marido, às 10 da noite de ontem, ao RI” diz o Comandante.
Era preciso persistir: Odete vai então ao Quartel do RI. Mas como a tática utilizada pelos militares do regime era nunca oferecer a informação correta e completa, responde para Odete que somente á noite poderia lhe dar alguma notícia.

Como as informações vinham a conta-gota, o Comandante lhe diz, mais tarde, que a única coisa que podia acrescentar, é que “esse pessoal está num lugar de clima mais agradável o que Natal” e que ela fosse ao Quartel no dia seguinte.

O pessoal a quem o Comandante se referia era não só Luiz Maranhão, como os demais presos políticos: o então prefeito de Natal, Djalma Maranhão, Aldo Tinoco (pai do atual prefeito) e Floriano Bezerra.
Diante da informação , Odete não teve dúvidas: “Senti logo que o lugar era Fernando de Noronha”.
Decidida a resistir, ela escreve uma carta ao General Murici, então Comandante da Região Militar, que lhe respondeu, através de telegrama, que a tantas horas daquele dia, ela estivesse na Base Aérea para seguir para Fernando de Noronha. Prevenida, Odete teve receio de que o avião não pousasse em Natal, preferindo, então, embarcar em Recife, juntamente com a irmã Aliete.

“Quando chegamos na Ilha, subimos uma ladeira enorme numa caminhoneta sem capota. O calor era tão intenso que o suor pingava nos pés. Quando mal entramos na sala para falar dom os presos, nos serviram uma Coca-Cola, e nem tínhamos terminado de tomá-la, nos convidaram a sair. Peguei na mão de Luiz com toda a minha força para acreditar que era ele mesmo”.

“Eu tinha sabido no aeroporto de Recife que no dia seguinte chegaria um outro avião à Ilha e resolvi me arriscar e implorar a um tenente: Seria possível voltarmos no outro avião? O nosso sacrifício para chegarmos até aqui foi tão grande, nos permita isso Tenente.

-Não senhora. A Ilha não tem acomodações para senhoras”. Respondeu o militar. Odete ainda insistiu que elas e as outras  senhoras não queriam conforto e que poderiam ficar ali mesmo de pé. No entanto, toda a sua argumentação foi inútil.

Na ocasião, Fernando de Noronha estava sendo visitada pelo então Chefe da Casa Militar do Governo Castelo Branco, general Geisel. Luiz aproveitou para denunciar as condições desumanas como estavam sendo tratados os presos políticos. O General não parava de caminhar, mas Luiz não desistiu e caminhando ao seu lado, apresentou o seu protesto.

Na Ilha, o encontro de Odete com Luiz foi rápido. Ele lhe disse que estava bem, que ali não lhe tinham torturado e que estava aproveitando o tempo para aprofundar os estudos da Geografia, matéria que ele havia ensinado no Atheneu e na Faculdade de Filosofia. Logo veio o chamado para o retorno. Partimos então, minha irmã e eu para Recife aguardando a vinda de Luiz, de Fernando de Noronha, de onde ela acredita que ele saiu no mês de outubro, seis meses após ser recolhido ao Quartel do RO. Odete levava na bolsa dinheiro para o marido deixar o País, coisa que ele nunca admitiu.

Luiz tinha tanta certeza de que não ia ser solto, que ao desembarcar, decidiu permanecer no aeroporto. Ele queria evitar o constrangimento de ser preso no caminho para Natal. Realmente ele foi preso e passou a noite na mesma prisão onde estava Miguel Arraes, governador de Pernambuco na época. Mesmo em celas diferentes eles conversaram à noite toda, segundo Odete.

No dia seguinte, sem que Odete soubesse, Luiz foi transferido para Natal, sendo liberado. A notícia ela recebeu através de uma senha que vinha da irmã Aliete por telegrama: “A festa vai ser mesmo hoje”.
“Viajei imediatamente para Natal e quando cheguei na casa da minha mãe, ele estava muito tranqüilo, sentado no terraço.

A casa vivia cheio de amigos, e temendo pela segurança deles, Luiz decidiu passar uns dias fora de Natal. “pessoas de todas as camadas sociais iam a nossa casa”. Entre outros amigos, Odete recorda o médico da família José Varela, ex-Governador do estado, que lhe pediu para ver a roupa que o líder comunista tinha usado após a tortura sofrida no Quartel do RO, quando foi várias vezes colocado de cabeça para baixo num tonel com óleo e água.

Embora a roupa tivesse sido vestida após a tortura (durante o sacrifício o deixaram somente de cueca) podia-se ver o óleo impregnado no tecido, testemunhando a ocorrência.

O médico levou as peças ao Comandante da RO que, segundo informou, não tinha conhecimento do caso e que um tenente de nome Sales teria ordenado a tortura na sua ausência.

Para evitar o comprometimento das visitas, Luiz segue então para uns dias em Estremoz, num sítio de um cunhado de Odete. Do retiro, quando ele pôde pensar mais calmamente sobre o seu futuro como militante comunista, uma decisão foi tomada: a partida para o Rio de Janeiro, já que em Natal o perigo era iminente. Foi o máximo que a amada Odete pôde conseguir de um homem que apesar do seu amor, não podia renunciar às suas idéias de construção de uma sociedade igualitária. Diante da negativa de um exílio no exterior, a transferência para o Rio representava, naquele momento, a saída mais imediata.

Sufocada pelas lágrimas, Odete vê o marido partir em um taxi para João Pessoa, onde apanharia um ônibus para continuar o seu destino. Ela pressente que, a partir daquele momento, já não iria mais viver com o companheiro uma vida normal de marido e mulher. Os seus dias seriam mais longos e suas idas e vindas para os encontros furtivos lhe restariam como única esperança.

A CLANDESTINIDADE E A VIA CRUCIS

Apesar da separação, o amor de Odete e Luiz Maranhão não foi abalado. Os intervalos, entre uma ida e outra, dela ao Rio ou à São Paulo, eram preenchidos, sempre que possível, com conversas ao telefone, testemunhos de muitas juras de amor.

Mesmo distante do amado, Odete procurava manter as aparências. Continuava em Natal com o seu consultório odontológico e como professora da Universidade. Talvez prevendo a insegurança do próprio futuro, Luiz sempre lhe recomendava que nunca abandonasse o trabalho.

Nos primeiros anos, o Quartel General de Luiz foi a casa de José Cândido e da amiga Heloneida Studart (hoje deputada estadual pelo PT), no Rio de Janeiro. “Era lá que nós nos encontrávamos. Depois, comprei um pequeno apartamento no Leme e tivemos a sensação de que tínhamos reconstituído o nosso lar”. Só que essa sensação durava pouco, pois Odete tinha que retornar ao trabalho em Natal.

A saída de Luiz Maranhão de Natal se deu em 1964 após a prisão de Fernando de Noronha, e nunca teve retorno. No Rio ou em São Paulo, ele sempre ocupou cargo na direção do Comitê Nacional do Partido Comunista.

A sua roda-viva de articulações políticas e de reuniões partidárias só era interrompida para receber a bem-amada, de vez em quando, quando ela tirava férias, licença ou aproveitava algum feriado.

Odete lembra que nas primeiras viagens, Luiz mandava os amigos apanhá-la no aeroporto e no caminho chegava a trocar de carro, como estratégia, visando à ocorrência de alguma eventualidade, já que ele vivia na clandestinidade. Depois, sentindo-se mais seguro, ele mesmo ia buscá-la.

“Acho que a única coisa que Luiz desrespeitava no partido eram as suas normas de segurança”, diz Odete que durante a sua permanência com o marido sempre ia ao cinema e ao teatro.

No Rio e em São Paulo, Odete e Luiz fizeram muitos amigos. Ela se lembra muito bem da família de Edmundo Muniz, de Gerardo Melo Mourão, de Valério Konder e do filho Leandro Konder que conforme recorda, tinha as qualidades excelentes do pai; de Rose Merie Muraro, Heloneide Studart entre outros, sem falar no relacionamento que sempre mantiveram com os amigos de Natal que estavam no Rio e em São Paulo.

A cada viagem Odete renovava a sua felicidade e voltava sempre com a expectativa do próximo reencontro.
Em janeiro de 1974 ela se despediu do marido na rodoviária do Rio. Em missão do partido, ele iria para São Paulo e ela rumaria para o aeroporto afim de retornar a Natal...

“Ele ficou acenando para mim até eu desaparecer”, recorda ela sem saber que aquela seria a sua despedida final. Um mau presságio encheu o seu peito dois meses depois, no dia 25 de março. Era o aniversário da sua mãe, a quem Luiz chamava de sogrinha. O dia terminou sem que ele telefonasse para parabenizar dona Anunciada, como fazia nos anos anteriores.

A partir daí, o telefone mal começava a tocar e Odete já estava a atendê-lo.
As noites e os dias lhe pareciam sem fim, num sofrimento desesperador, até que no dia 3 de abril, a ligação de uma prima sua que morava no Rio prenunciava a agonia fatal: “Odete, você deve vir urgente para resolver uns problemas de Luiz”.

O tempo só foi suficiente para ela apanhar uma pequena mala com a roupa nova que tinha comprado para o marido e rumar para o aeroporto, sem saber exatamente do que se tratava.

“Corria a notícia de que Luiz tinha sido preso, mas que era uma prisão diferente e que ele não ia ser torturado como tinha sido em Natal”. Era o que informavam os amigos que a cobriam de atenção, com dó do seu desespero e sofridos com a perda do líder comunista.

“Me contataram que Luiz tinha sido preso em São Paulo numa praça, quando ia se encontrar com David Capistano, que estava chegando da União Soviética. Eles pensaram que se tratava de um assalto e gritaram, chamando a atenção de um pessoal que estava em um bar nas proximidades. Ao se aproximarem, essas pessoas viram chegar os carros do Exército  e recuaram”.

VIA CRUCIS
Ao tomar conhecimento da prisão de Luiz, Odete inicia a sua vida crucis, percorrendo Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, visitando políticos, generais, prisões e manicômios.

Foi primeiro ao DOI-CODI em São Paulo, verificar a sessão de desaparecidos e aos jornais para publicar fotos de Luiz, e nada.

“Onde eu chegava encontrava as mesmas senhoras procurando os seus maridos, filhos e irmãos, também desaparecidos.

Um dia, tivemos o desprazer de sermos chamados pelo então Ministro  Golberi de Couto e Silva, a Brasília. Ele ouviu o depoimento de cada uma de nós e disse-nos que seria um túmulo e, portanto, jamais iria nos denunciar. Eu fiz questão de dar o meu depoimento em público, por que eu estava no meu direito de esposa, procurando o marido desaparecido”.

Era final de julho de 1974, e Golberi prometeu a Odete e as demais senhoras que no dia 25 de agosto lhes daria uma resposta sobre o paradeiro dos seus familiares.

“Eu pensei logo: 25 de agosto é o Dia do soldado. Eles vão está em festa e não vão nos receber – dito e feito: o Ministro remarcou o nosso encontro para 3 de setembro”.

SIMPLES CAPACHO
Enquanto isto, partimos para um encontro com o Ministro Célio Borja, então ministro da Justiça.
Ele nos prometeu que iria investigar os casos e nos daria uma resposta três dias depois. Decorrido o prazo marcado, “ele chegou de cabeça baixa e nos disse humildemente: “minhas senhoras, eu sou um simples capacho. Não tive acesso a nenhuma informação sobre as pessoas que procuram”.

Algumas pessoas chegaram a chamar Borja de demagogo, mas Odete, com a sua bondade, preferiu acreditar que ele estava sendo sincero e que estava muito sensibilizado”.

Ainda nas suas lembranças, Odete guarda um encontro com o Senador Dinarte Mariz, “que me deu uma acolhida maravilhosa”. “Ele teve um entendimento com o Ministro Armando Falcão. Nessa ligação telefônica, todas as qualidades de Luiz, Dinarte exaltou. Há quem diga que o telefone não estava ligado, mas eu acredito que estava”.

“Passei muitos dias indo ao gabinete de Dinarte, mas ele não conseguia nenhuma informação. Também fui pedir socorro a todos os demais parlamentares do Rio Grande do Norte, mas nada consegui”.

Odete também recorda que em certa ocasião, o deputado federal Lisaneas Maciel MDB-RJ) fez um comício no largo do Machado, quando denunciou o desaparecimento de Luiz. Ele lhe chamou para subir o palanque, mas as suas pernas estavam tão trêmulas que não lhe permitiram atender ao chamado. “Daquele tempo até hoje, nunca mais parei de tremer”, afirma.

Ela lembra que muitos amigos a apoiaram, como o professor José Cândido, “que às vezes conseguia me deixar esperançosa, mas como tudo o mais, a  minha esperança foi se diluindo no tempo”.
“O escritor Gerardo Melo Mourão também me deu um apoio enorme. Por intermédio dele e de outros amigos, fiz uma carta ao líder do MDB, Laerte Vieira. Essa carta foi lida na Câmara Federal pelo deputado Tales Ramalho (MDB-PE), nosso amigo de longas datas”. Tales estava doente e foi levado à Câmara em uma maca. O Governo nunca deu a Odete qualquer resposta sobre essa carta.

Desesperada para conhecer o paradeiro do marido, Odete volta ao Rio e a São Paulo com uma lista de 12 prisões que foram por ela percorridas, uma a uma.

Numa delas, um cidadão de meia idade lhe abordou: “a senhora é esposa de Luiz Maranhão? Que orgulho eu tenho em falar com a senhora. Luiz esteve preso comigo e saiu daqui há cinco dias”.

O seu nome era Miguel, mas Odete não se lembra do sobrenome. Recorda que, para realmente se identificar, ele chegou a falar sobre as latas de doce que Luiz usava como cinzeiros, durante as reuniões do Partido no seu apartamento em Natal. O preso ainda chegou a dizer: “Luiz disse que quando saísse daqui me mandaria um franguinho assado pela primeira pessoa que encontrasse; ele mandou?”

Odete, que ao percorrer as prisões levava sempre uma sacola com comida, nas esperança de encontrar o marido, entrega àquele homem as frutas que tinha comprado.

Continuando a sua peregrinação, ela chega no dia seguinte a um Quartel onde encontra um familiar do tal Miguel, não se recorda se a mulher ou uma filha. A pessoa se dirige a ela e lhe diz que Miguel mandara lhe dizer que o homem sobre o qual falara no dia anterior não era Luiz Maranhão, tinha havido um engano.
Cada vez mais desesperada e doente, Odete não conseguia entender por que tanta maldade. Que causa era aquela que empunha tanto sofrimento ao marido? Logo ele, uma pessoa que nunca tinha feito mal a ninguém. Que pessoas eram aquelas outras que o torturavam sem sequer conhecê-lo, na ilusão de destruir os seus ideais?

Os pensamentos tristes povoavam a sua mente dia e noite, trazendo a insônia. Ela não conseguia fechar os olhos diante de tanta injustiça.

Quando o outro dia amanhecia, mais uma vez Odete saia na sua peregrinação. Certo dia, por intermédio de Edrísio Pinto, um amigo de Recife, ela chega a presença do General Ednardo D’ Avila, em São Paulo. Munida de um cartão de apresentação, ela consegue transpor o portão do Quartel e em companhia de dois soldados armados, chega a presença do General.

-“ Amanhã, nesta mesma hora, a senhora me procure” – diz autoritariamente o General.
Cansada de tantas promessas e desilusões, Odete resolve reagir:
- General, para chegar hoje ao senhor eu tive que enfrentar as baionetas dos seus soldados encostadas as minhas costas. Como é que eu vou poder voltar aqui?
- Então a senhora me telefone, que vão me chamar aonde eu estiver.

No dia seguinte, Odete telefona e com dificuldade consegue falar com o General. Ele simplesmente lhe disse que nada sabia informar sobre o desaparecimento de Luiz e que lamentava que “esses homens tivessem essas idéias e as suas famílias ficassem sofrendo”.

DOUBLÉ
Novas tentativas precisariam ser feitas. Aconselhada pelo amigo Danilo Bessa, que na época se encontrava em São Paulo, Odete resolve procurar o advogado que o tinha livrado da prisão.

“Fui com a minha irmã Aliete e tive uma péssima impressão desse advogado, que mais me pareceu um doublé de advogado e policial. Ele olhou para mim e disse:
- “Minha senhora, vamos trazer o bicho amanhã. A senhora tem CR$ 5 mil aí para me dar?
Ela deu o dinheiro, mas achou aquilo tudo muito estranho.Por isso, ainda na rua, tomou uma decisão: quer saber de uma coisa, eu vou buscar esse dinheiro.
Retornou ao advogado e disse-lhe que precisava da quantia por que a sua mãe estava doente e tinha que comprar uns remédios.
- Mas eu preciso do dinheiro para pagar as informações, insistiu o pretenso defensor. Foi então que sua cliente resolveu lhe deixar apenas CR$ 2 mil, que em 1974 representava uma significante quantia. A partir desse dia, Odete nunca mais soube do paradeiro do tal advogado, decepcionando o seu amigo Danilo Bessa que o tinha apresentado.

Ainda não se dando por vencida, certa vez Odete resolve voltar ao Palácio Episcopal de São Paulo para mais uma vez falar com Dom Evaristo Arns. Esse Cardeal, segundo Heoneida Sturdat (que no último mês de janeiro veio à Natal visitar a velha amiga)” tinha se transformado em suplicante dos poderosos, a esmolar pela vida dos opositores do regime”. Ao chegar a sua presença, para mais uma vez procurar notícias do marido, Odete vê rolar uma lágrima no rosto do padre, suspeitando então, que ele já não podia mais fazer nada para encontrar o seu Luiz.

Ainda hoje, Odete guarda um cartão enviado pelo Cardeal no dia 14 de julho de 1974, informando está vigilante na descoberta de uma pista sobre o desaparecimento do líder comunista.
E assim, o tempo foi passando e Odete foi cada vez mais se isolando de tudo e de todos. No entanto, o seu intenso e longo sofrimento não lhe deixou ódio no coração, onde só existe espaço para o amor. As suas lembranças são dóceis, com o tom da resignação, por que Luiz sempre ensinou que “não se deve dar o troco com a moeda do fascismo”, lição que ela nunca esqueceu.

Foram muitos meses de peregrinação e apelo por uma “esmola de notícia”, como ela costuma repetir. Tudo inútil. Ninguém conseguia lhe explicar o inexplicável: o significado daquela sádica luta sangrenta que lhe tinha roubado o marido, mas jamais o seu amor por ele.

A AGONIA DA SAUDADE
O desespero que lhe dominou no distante ano de 1974, quando o marido desapareceu, Odete Maranhão substituiu por uma imensa saudade, que alimenta as doces lembranças do passado.

“Muita coisa eu faço questão de esquecer e muitas vezes eu sinto como se Luiz não tivesse morrido, por que eu não consigo rezar por ele”.

É esse sentimento alternado de presença e perda, ternura e vazio que Odete Roselli Maranhão nunca conseguiu superar nesses quase 20 anos que sucederam o desaparecimento do marido.

Passados os meses de busca intensa entre Brasília, Rio e São Paulo, ela retorna à Natal, ao passando a sobreviver com a terrível dúvida sobre a existência ou não de Luiz.

Estaria ele em algum hospital inválido pelas torturas sofridas? Estaria esquecido pela justiça em uma cadeia qualquer? Teria perdido a memória de tanto sofrer? Estaria precisando de socorro ou teria sido assassinado? Como teria sido a sua morte? Essas perguntas e outras foram repetidas durante anos a fio, tendo o silêncio como resposta. “Muitas vezes eu pedi a Nossa Senhora que fizesse com que ele voltasse nem que fosse só para eu lhe dar um túmulo.”.

Em 1978, como a anistia política, Odete reacende as esperanças: “Ele agora pode voltar”; repetia muitas vezes, procurando enganar a si própria.

Os dias e meses foram se passando e mais uma vez o desengano lhe cobre de tristeza, agravando a sua saúde.

O depoimento de Marival Chaves, ex-sargento do DOI-CODI, em novembro do ano passado, sobre as torturas aos presos políticos pelo regime militar, dando conta de que Luiz Maranhão não tinha sido morto e jogado em um rio, caiu como uma bomba sobre a cabeça de Odete, que a cada dia se sente mais doente e fragilizada.

Sabendo que a revista Veja ia publicar matéria sobre o depoimento, um amigo de Odete telefonou para a sobrinha Mariane, aconselhando-a que não deixasse a tia ler a entrevista. Tudo inútil. Ao chegar na ante-sala do seu dentista, Odete encontra a revista e fica sabendo de tudo, não esquecendo de passar na banca para comprar quatro exemplares, segundo a sobrinha Mariane.

No mês de janeiro, último, Odete recebeu a visita da amiga Heloneida Studart, que para homenageá-la veio lhe entregar os originais do livro que escreveu sobre o ex-companheiro Luiz Maranhão, com quem conviveu no Rio de Janeiro, no período da clandestinidade. Heloneida é hoje deputada estadual (PT-RJ) e autora de vários livros, contando também do seu currículo da sua passagem pelos cárceres de São Paulo como presa política. Foi na sua casa que Luiz e Odete se hospedaram diversas vezes e no seu ombro Odete pôde chorar a perda do marido.

Enquanto foi possível alimentar ilusões sobre a perda sobre a perda de Luiz, Odete foi resistindo. Mas depois que ela leu e ouviu através da imprensa o que na realidade já esperava – o covarde assassinato – perdeu as forças e não teve coragem, sequer, de ler os originais do livro de Heloneida: “Eu sabia que ia me emocionar muito”, afirma com voz embargada.

A saúde de Odete começou a ser consumida ainda em Natal, em 1964, quando foi acometida de uma paralisia facial no momento em que ao chegar ao Quartel do RO para visitar Luiz, soube que ele já não estava mais ali. Com o desaparecimento em 1974, ela foi piorando a cada dia. Para suportar tanta dor, o seu médico no Rio de Janeiro – que conhecia a sua história – teve que lhe receitar muitos tranqüilizantes:

“Eu cheguei a tomar 13 comprimidos por dia. Quando eu começava a fraquejar, o meu médico tentava me dar forças. Mas, certa vez fiquei tão mal, que ele me prescreveu uma sonoterapia intensiva, mas eu não quis por que não pretendia parar as minhas buscas. Depois, ele disse que eu devia deixar de trabalhar, mas eu só deixei quando me aposentei, por que Luiz sempre me dizia que eu nunca deixasse o meu trabalho por pretexto nenhum”.

“Um dia o meu médico me disse: Odete eu sou muito realista, o seu marido entrou para a história. Eu interpretei aquela frase como se ele acreditasse que Luiz já não vivia”.

No apartamento do amigo fraterno José Cândido Filho, na av. Atlântica, no Rio de Janeiro, os amigos iam visitar Odete e durante o seu sofrimento ninguém tinha coragem de dizer que vários outros membros do Comitê Central do Partido também estavam desaparecidos.

Para suportar a perda do marido, Odete procurou cada vez mais se dedicar às sobrinhas. Hoje, os filhos das sobrinhas Amália e Mariane, são como seus netos e é por eles que ela decidiu que ela decidiu entrar na justiça com um pedido de idenização pela morte do marido. “Antes, eu nunca pensei nessa hipótese, por que nada nesse mundo pode reparar a perda de Luiz e o meu sofrimento, mas muitos amigos me aconselharam por ser um direito meu”.

Morando no bairro do Tirol com a irmã Isabel, a quem chama de Bela, também viúva, Odete amarga sua tristeza que sempre encontra trégua na presença dos sobrinhos, de Maria, a sua outra irmã, e dos amigos, quando vão visitá-la. Quase nunca sai de casa, a não ser para o banco, a casa das sobrinhas e as reuniões da Academia de Odontologia, a qual integra como um dos 40 imortais.

A sua agonia vem sendo lenta porque os torturadores do seu marido que também foram os seus, preferiram torturá-la a vida inteira, negando-lhe até o último direito, o de chorar diante do túmulo do seu amado, que tem como repouso o frio leito de um rio.

A repressão militar matou um homem, massacrou uma mulher, arrebatou de ambos o direito da convivência, mas não conseguiu roubar de Odete Roselli Maranhão a ternura e o seu amor por Luiz.
 
 Natal/RN - Brasil,