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Dom Eugenio Sales: um principe da Igreja

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A tradição eclesiástica denomina os cardeais de Príncipes da Igreja, título criado por Bonifácio VII, cujo pontificado decorreu entre 1294 e 1303. Anteriormente, já haviam sido distinguidos por Nicolau I (858-867) com a precedência diplomática sobre os arcebispos e bispos. Inocêncio IV (1243-1254) os revestiu com a cor púrpura e lhes impôs o barrete vermelho. Finalmente, Urbano VIII (1623-1644), conferiu-lhes o tratamento de eminência reverendíssima, acatado por todos os países que mantêm relação diplomática com a Santa Sé. O protocolo do Vaticano prevê que sejam recebidos como os príncipes das casas imperiais e reais.

Ao longo da história da Igreja, criaram-se três ordens cardinalícias. Os cardeais bispos, que são os titulares de seis dioceses circunvizinhas de Roma. Em geral, prelados que ocupam postos nos dicastérios (congregações e secretarias) do Vaticano. Seguem-se os cardeais presbíteros, responsáveis por algumas igrejas e basílicas romanas. Dom Eugênio era cardeal presbítero da Igreja de São Gregório VII. Paulo VI nomeou-o, no consistório de 28 de abril de 1969, tornando-se cardeal primaz do Brasil, pois, nessa data, era arcebispo metropolitano de Salvador, na Bahia. Em 1971, foi transferido para a arquidiocese do Rio de Janeiro, conservando a mesma titularidade cardinalícia, apesar dos arcebispos cariocas, por tradição, ocuparem a igreja de São Bonifácio e Santo Aleixo, em Roma. Pela antiguidade, tornou-se cardeal proto-presbítero entre os 155 pares. Vale ressaltar que há também 45 cardeais diáconos e três cardeais patriarcas das igrejas orientais, que detêm o título de igrejas romanas.

Hoje, no mundo, somam 208 os príncipes da Igreja. São os eleitores do papa no conclave, exceto os que completaram 80 anos. A distinção das ordens é histórica. De acordo com o estado clerical, eram titulares de uma igreja episcopal, presbiteral ou diaconal. Nos séculos passados nem todos os cardeais eram sacerdotes e bispos. Alguns eram líderes cristãos e conselheiros dos papas. É evidente que em certos momentos, houve interferência política. Lembremo-nos dos cardeais Mazarino e Richelieu.

Etimologicamente, a palavra príncipe vem do latim princeps e significa o que vem primeiro, o que precede. Não apenas na ordem cronológica e ritual, mas sobretudo, aquele que antecede, porque cria, descobre, aponta e sugere. Especialmente, nesse sentido e seguindo a semântica, o Cardeal Sales foi um príncipe, enquanto pioneiro ou precursor em vários assuntos eclesiais. Não podemos ignorar a versão eclesiástica, mas é nessa dimensão que vemos em Dom Eugênio um Príncipe da Igreja. Muito se tem dito sobre sua atividade pastoral, religiosa e até política, quando teve, de forma silenciosa e decisiva, uma atitude humanista, diplomática e de verdadeiro pastor com os perseguidos, presos políticos e refugiados, quer brasileiros, quer estrangeiros.

Apraz-nos, no entanto, escrever sobre Dom Eugênio, como amigo e benfeitor do clero brasileiro, tendo obtido, com sua ação direta e influência, muitas conquistas para os sacerdotes, religiosos e mesmo ministros de outras denominações religiosas.

Até o início do Concílio Vaticano II, o clero do Brasil vivia à margem da previdência, sem direito à aposentadoria oficial ou privada. Os padres, quando idosos e doentes, não dispondo de bens de herança, viviam à mercê da caridade dos fiéis. Em reunião da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, o Cardeal Sales sugeriu e lutou para que se criasse o Instituto de Previdência do Clero - IPREC, órgão de assistência social e médica dos bispos, sacerdotes e religiosos. O Instituto durou dez anos. E em 1974, os contribuintes encontraram-se novamente à mercê da Providência, sem a previdência.

O Arcebispo do Rio de Janeiro, através do seu empenho, convenceu alguns parlamentares, que apresentaram no Congresso Nacional um projeto de lei, aprovado e sancionado, em 08 de outubro de 1979 (Lei 6.696), que versa em seu artigo 1º, "§ 1º: São equiparados aos trabalhadores autônomos: ... II - os ministros de confissão religiosa, e os membros de institutos de vida consagrada e de congregação ou ordem religiosa".

E para recuperar o tempo de contribuição ao IPREC e averbar o período de atividade sacerdotal ou religiosa, sugeriu que no texto do diploma legal fosse inserido este artigo: "Art 7º. Fica assegurado aos ministros e ex-ministros de confissão religiosa ou aos membros e ex-membros de institutos de vida consagrada, congregação ou ordem religiosa..., se o requererem no prazo de 180 dias da vigência desta Lei, o direito de computar o tempo de serviço anterior, prestado às respectivas instituições religiosas, para efeito da Previdência Social". Desnecessário dizer que muitos foram beneficiados por essa lei, cuja ideia partiu de nosso ilustríssimo conterrâneo. Quantos gozam de uma aposentadoria digna, graças a sua ação eficiente e profundamente evangélica. Talvez poucos clérigos tenham conhecimento desse fato.

É sabido que os estudos e cursos dos seminários por mais eruditos, clássicos e profundos que fossem, no passado, eram livres e não gozavam do reconhecimento oficial do Estado. Muitos sacerdotes não puderam exercer funções magisteriais, pois não eram detentores da habilitação prevista pelos sistemas de ensino.

No final da década de 60, apesar do clima tenso entre a Igreja do Brasil e o governo militar, às vésperas do AI-5, Dom Eugênio conseguiu a edição do Decreto-lei 1051/69 que (in verbis): "Provê sobre o aproveitamento em cursos de licenciatura, de estudos realizados em Seminários Maiores, Faculdades Teológicas ou instituições equivalentes de qualquer confissão religiosa".

Uma das grandes preocupações de muitos bispos é a saúde dos seus padres. O Cardeal Sales chegou a dizer ao Núncio Apostólico, em 1982: "Não me preocupa a minha saúde. Pois falecendo um bispo, o Papa nomeia outro, em breve espaço de tempo. Porém inquieta-me a saúde dos meus padres, pois, se um deles morre, tenho de esperar 14 anos para ordenar outro sacerdote". Dom Eugênio foi o primeiro bispo a firmar contrato coletivo com uma operadora de plano de saúde, dando cobertura a todo o clero do Rio de Janeiro. E foi mais ainda. Diante de dificuldades financeiras de algumas dioceses, estendeu a abrangência a outros sacerdotes.

Uma das preocupações de Dom Eugênio era com os padres idosos e doentes. Disso somos testemunha. Quando fomos para o Rio de Janeiro, gravemente enfermo, o Cardeal não só enviou uma ambulância para nos levar do aeroporto ao hospital, mas dirigiu-se até o Galeão para nos receber e abençoar, deixando seus múltiplos afazeres. "Non possum non loqui (Não posso calar)," disse São Pedro. Para dar conforto aos sacerdotes eméritos e enfermos criou a Casa do Padre, no Rio de Janeiro, onde os mesmos pudessem viver em paz e com dignidade os seus últimos anos.

No início da década de 60, éramos estudante em Louvain, na Bélgica. Por duas vezes, acompanhamos Dom Eugênio a Essen, na Alemanha, sede da organização católica ADVENIAT, que concede ajuda às igrejas irmãs. Uma de suas preocupações era o deslocamento dos seus sacerdotes. Com a ajuda desse organismo, dirigido, à época, por Dom Franz Hegensbach (bispo de Essen e futuro cardeal) criou, ainda, quando administrador apostólico de Natal, o plano de motorização do clero. Desejou que cada sacerdote dispusesse de um veículo e dava a seguinte orientação aos presbíteros: "Não afrontem a pobreza dos nossos irmãos com carros de luxo. O povo de Deus precisa, sobretudo, de seu testemunho de fé e sua caridade". Oxalá nossos irmãos padres sigam seu conselho e sua orientação.

Cumpre-nos ainda lembrar que, quando era arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eugênio concedeu também bolsas de estudos a seminaristas de Caicó.

Irmão e amigo dos padres, o Cardeal Sales viveu o seu lema, inspirado em São Paulo: Impendam et superimpendar. O Apóstolo dos Gentios (cf.2 Cor 12, 15) afirmara "Ego autem libentissime impendam et superimpendar ipse pro animabus vostris. Si plus vos diligo, minus diligar?" "Quanto a mim, de bom grado me entregarei, e entregar-me-ei todo inteiro, em vosso favor. Será que, dedicando-vos mais amor, serei, por isto, menos amado"?

Gostaríamos de concluir com a frase de um teólogo (nosso colega de doutorado em Teologia): "Posso discordar de muitas ideias e do pensamento de Dom Eugênio. Mas não posso negar que é um homem íntegro, honesto, corretíssimo, um homem de Deus e da Igreja".

Na verdade, sua vida foi toda dedicada ao Povo de Deus. Obrigado, Dom Eugenio de Araújo, Cardeal Sales. Vossa Eminência foi até agora o primeiro e o único Príncipe da Igreja potiguar, hierárquica e semanticamente!

Padre João Medeiros Filho
Especial para Tribuna do Norte
 

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