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Os Pedroza

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"Fabrício, era neto, bisneto, e sobrinho de Fabrícios Pedrozas. Pertenceu a uma dinastia de comerciantes, incampazes do funcionalismo público. O pai deixoe-o com 19 anos em 1936. Fabrício, era sizudo, tranquilo, com poucas falas, anredio, sorrindo quando concordava. Ninguém esperava que sua popularidade se estendesse tanto, envolvendo todas as classes.

Vez por outra os jornais falavam nas vitórias de Fabrício jogando tênis. Havia um conjunto famoso. Ele, a irmã, Elza, e os irmãos, Sylvio e Fernando. A mãe, dona Branca, mantinha o pulso firme, defendendo a soberania nos domínios da raquete. Meses antes os Pedroza tinham ido a João Pessoa jogar tênis. Foram em dois "teco-tecos", pilotados por Fabrício e Fernando, atual presidente do Aero Clube. Dona Branca, acompanhou-os jogando e vencendo. Como os três rapazes eram industriais e comerciantes, eu ofereci um contrato vantajoso como empresário de tênis. Podiam fechar os escritórios e gerências e aceitar os desafios em Wimbledon ou Cannes, quando a guerra terminasse. O motivo era para rir. Nunca entedera eu de tênis nem os Pedroza de contratos profissionais.

Fabrício, o mais velho, conservava a fidelidade à lição paterna. Grande tenista, o melhor piloto, o mais calmo, sabedor e de maior número de horas de vôo, minutos antes da "chandelle" transformar-se em piquê, dera uma aula ao seu companheiro de avião, piloto como ele. Aconselhara voar alto sobre as lagoas e açudes no tempo do inverno. Aturdidos com o estrépito do motor, os patos, marrecas e paturis erguiam vôo em massa, chocando-se contra o frágil paulistinha voador. Assim, da fazenda para Angicos, o "teco-teco" ia alto. Desceu para a curva e para a morte. Fabrício, desligara o motor, evitando a explosão e lutara desesperadamente com a manche, tentando equilibrar o avião, o "Edgar Dantas", nome do primeiro e até então único aluno da Escola de Vôo, morto num desastre, quinze anos antes.

Quando a notícia se espalhou, os operários de Fabrício ficaram desolados. Em São Joaquim, na casa grande, a multidão dos vaqueiros encheu os caminhos. Fabrício, tenista, dançador de "swings", aviador, era um dos melhores vaqueiros na ribeira de Angicos. Vi-o derrubar, vinte vezes, ou fazer esteira para que o seu vaqueiro figurasse na hora do triunfo.

Ninguém admitiria um Fabrício de "smoking", falando inglês, lembrando viagens, livros, porcelanas, festas, naquele sólido vaqueiro, orgulhoso do ferro da fazenda, técnico na ciência da música, devoto dos bons cavalos, igual a todos os companheiros de corrida e baile, puxando a harmônica. Em Santana do Mato, assisti-lhe os lances de derrubador aclamado pela vaqueirama, atirado como um Marialva na sela do seu cavalo favorito, derrubando sem guante, com a bota clássica do sertanejo, a cabeça coberta com o pequenino chapéu de couro, redondo e vermelho. Estava com esse velho chapéu de couro quando morreu. Um vaqueiro aviador, industrial, homem de sala, presidente de clubes, tudo compreendendo, amando, vivendo.

Ninguém queira ver no Fabrício vaqueiro, administrador nato da fazenda, derrubador e ferrador de gado, uma adaptação psicológica e amadorismo espiritual. Fabrício, era realmente, puramente, o homem do campo, vivendo a existência de fazendeiro na plenitude do conhecimento moral. Indo para São Joaquim, olhando a Vila que tem o nome do pai, recebia com a investidura da tradição cavalheiresca. Curioso era ouvir-lhe o nome citado pelos velhos vaqueiros da região, incluindo-o na primeira lista das glórias locais, as glórias das vaqueijadas, resistência, afoiteza, loucura, destreza. Aqueles companheiros de gibão e véstia (*) nunca haviam de ver "seu" Fabrício no salão envernizado e reluzente no Aero Clube, na varanda de sua casinha de Areia Preta, pendurada numa colina, olhando o mar. Amavam-no como um dos manos, um vaqueiro rico, moço, viajado por terras da estranja, casado e com quatro filhos. Um deles, de três anos, é o quinto Fabrício..."

Por Gustavo Pedroza Joppert

 

 
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