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Eloy, o negro

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Não sei se foi desinformação ou esquecimento, e ainda que sem má fé. Ou, se o modismo do tema exigiu a pressa. O fato é que Thiago Gonzaga foi injusto, nas páginas do seu livro – ‘Presença do Negro na Literatura Potiguar & Outros Ensaios’, edição CJA, 2014, quando pareceu negar a Eloy de Souza a coragem sincera e orgulhosa de assumir sua negritude. Logo ele, o neto do vaqueiro Felix Potengi Pequeno, negro e aboiador magistral que apascentava os rebanhos nas ribeiras do Jundiaí.

É bem verdade que naqueles anos, mais de século, nem todos os submetidos a condições tão medonhas conseguiam ser vaidosos da negritude. Tanto mais, no caso dos Castriciano de Souza. Eles sabiam que, não fora sua razoável condição econômica herdade do pai, não teriam tido a formação de bacharéis. Foi o título de doutor que garantiu o respeito de uma sociedade discricionária que nos seus crivos de consagração social, e como é até hoje, não aceita negros e pobres sem cobrar pelo perdão.A literatura, sorriso da sociedade como queria Afrânio Peixoto, branqueava a pele dos literatos, até ainda as primeiras décadas do século vinte, e talvez até hoje. Se donos de alguma riqueza – de saber ou de bondade – era comum dizer-se dos pretos com alma branca, como uma fortuna, tal a intolerância. Eloy seria mais um caso se não tivesse registrado, tão terno, seu orgulho do avô negro nas memórias que deixou concluídas, mas só publicadas em 1975, há quarenta anos, pela Fundação José Augusto.

A declaração está na página 416 da segunda edição - Senado Federal/Instituto Pró-Memória de Macaíba, 2008 – ao se referir ao preço que sempre pagou por sua negritude nas lutas e debates que travou: ‘Os que me não podem responder pensam injuriar-me aludindo à minha cor. Saibam estes que a minha maior saudade e a minha maior admiração não são pelo meu avô branco e rico, mas pelo que era preto e pobre, porque foi deste que herdei a bondade dos fortes e a coragem estoica dos humildes.’

Contribuiu para essa crença de que a negritude dos Catriciano de Souza teria só sido apontada de forma bem humorada por Fabião das Queimadas, a divulgação da quadrinha que o próprio Eloy sabia de cor: ‘’Seu douto Eloy de Souza / Minha mãe sempre dizia / Se o senhor não fosse rico / Era da nossa família.’ Bastaria a nota do próprio Rômulo Wanderley na sua antologia ‘Panorama da Poesia Norte-Riograndense’ e ficaria demonstrado que se orgulhava do sangue negro que lhe corria nas vias.

Foi Eloy que levou Fabião à Vila Cincinato, residência oficial do governador. Como nasce de um desafio de Manuel do Riachão e Fabião das Queimadas as duas quadras publicadas por Afrânio Peixoto no seu ‘’Trovas Populares’, edição W. M. Jackson, Rio, 1919. Contei a história na crônica de 18 de junho de 2011, no Jornal de Hoje. Manuel do Riachão, num lirismo simples e encantador, no copiá da Fazenda Cachoeira do Sapo, em Macaíba, diante do então governador Alberto Maranhão:

Fabião, nós somos velhos
E velhor não valem nada;
Porque só vale quem ama,
Quem traz a alma enganada.

Fabião, registrei na crônica de Junho de 2011, temperou a garganta e pinicou as cordas, cantando:

A minha alma de velho
Anda agora renovada;
Que a paixão é como sono,
Chega sem ser esperada.

Fica o registro, Eloy leu as duas quadrinhas na conferência ‘Costumes Locais’ noite de 20 de fevereiro de 1909, no salão nobre do Palácio Potengi, há 106 anos. Era só.

 

 

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