Instituto José Maciel

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RECORDACAO DE UM GRANDE AMIGO

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Alfredo Mesquita Filho ou, como era geralmente chamado, Mesquita, é o quarto filho do casal Alfredo Adolfo de Mesquita, alto comerciante e fazendeiro em Macaíba, neste estado e de Dona Ana Olindina de Mesquita, de prendas domésticas, prima legítima de seu pai.

Conheci Mesquita quando foi residir em Macaíba, pois o mesmo havia chegado de Recife, onde fazia seu curso superior. O seu pai, necessitando de seus serviços na firma comercial, mandou chamá-lo para assumir a gerência da mesma.
Fui trabalhar na firma Alfredo Mesquita & Cia., a maior daquela cidade, onde passei 14 anos.

Morei durante esse tempo em companhia de Mesquita, tendo encontrado no mesmo um verdadeiro irmão, compreensivo, prudente e leal. Nunca houve entre nós a menor discussão ou aborrecimento. Era um verdadeiro líder da rapaziada daquela época, pois sempre havia muitas festas e bailes aos quais comparecia toda a sociedade macaibense, sem distinção de cor política. Também nesses eventos, Mesquita era estimado por todos. Tinha inúmeros amigos, velhos e moços. Daquela época faziam parte das festas e dos bailes, além de minha pessoa, cito os amigos Francisco Cabral da Silva, Manoel Pereira dos Santos e João Meira Lima. Como era alegre e cheio de vida esse saudoso amigo!
Durante todo tempo em que residi em Macaíba, compartilhei de suas alegrias e de seus dissabores, mas posso afirmar, a bem da verdade, que o mesmo nunca teve a mínima lembrança de vingança, por maior que fosse a ofensa recebida.
Foi um grande benfeitor, especialmente do povo mais humilde de sua terra.

Era maçom grau 30º da Loja “21 de Março”.
Ninguém, amigo ou adversário político, procurou-o, na hora da necessidade, sem que, na medida do possível, fossem satisfeitas as suas pretensões, sem cobrar nada pelo favor. “O verdadeiro benfeitor é aquele que na hora da desgraça vem, ajuda e passa”. Este episódio eu me lembro como se houvesse acontecido hoje.

Havia um homem chamado Jesuíno que falava às escondidas de Mesquita. Um dia ele precisou de um grande favor, mas se acanhou de falar-lhe pessoalmente e o fez por intermédio de Manoel Alves da Costa. Mesquita mandou dizer-lhe que viesse pois seria satisfeita a sua pretensão. Depois de fazer o que o mesmo pediu, este se desmanchou em oferecimentos e agradecimentos. Mesquita lhe disse: “Pediria apenas isto. Não quero nada, a não ser que o senhor fale de mim se houver razão”. O homem baixou a cabeça e foi embora. De gênio temperamental como era por todos conhecido, na hora da ofensa recebida reagia com todas as forças de que dispunha, mas depois do caso passado, não lhe restava o menor resquício de ódio encravado no seu coração.

Durante muitos anos, seu pai, ele e seus irmãos, sempre militaram na oposição apoiando o senhor Antônio de Andrade Lima (major Andrade), tendo melhorado a situação no governo do doutor José Augusto Bezerra de Medeiros, que amainou os ânimos dos chefes políticos mandantes naquela época. A propósito, quero lembrar um episódio bastante interessante que se deu na política de Macaíba.

O doutor Cícero Aranha era diretor do Tesouro do Estado e o governador indicou-o para prefeito de Macaíba, sendo eleito. Não podendo acumular o cargo que desempenhava com o de prefeito, resolveu o seguinte: fazer uma eleição para vice-prefeito entre os vereadores eleitos e ele passar o cargo de prefeito durante seu impedimento. Tinham sido eleitos três vereadores de cada lado: o prefeito detinha o direito a voto e dizia dos dois lados que votaria a favor do candidato de cada um. Mesquita, que era um dos vereadores da oposição, desconfiou e combinou com seus dois companheiros, Francisco da Costa Filho e João Meira Lima a votarem no vereador mais velho, que embora fosse adversário político, era amigo particular de todos. Aberta a urna, veio a surpresa: três votos para o candidato do governo e três votos para o vereador João Soares da Fonseca Lima (Joca Soares), que, em vista de ser o mais idoso, assumiu o cargo, de acordo com a lei. O doutor Cícero e seus companheiros ficaram decepcionados, mas Mesquita e seus amigos vibraram com a vitória obtida, mesmo com um candidato que não era de seu partido, pois não reuniam possibilidade de fazê-lo.

Em 1929, sofremos uma irreparável perda com o falecimento de nosso velho amigo, patriarca da família Mesquita, senhor Alfredo Adolfo de Mesquita, deixando uma lacuna impreenchível no seio da família e dos amigos.

Em 1930, vitoriosa a revolução, tudo parecia melhorar quando foi escolhido prefeito da cidade o major Andrade. Entretanto, dentro de pouco surgiram divergências entre ele e seus antigos correligionários e tudo voltou ao que era dantes, ficando Mesquita e seus amigos fiéis novamente na oposição esperando e batalhando por dias melhores para sua querida terra.

Outro episódio aconteceu na vida política de Mesquita, digno de registro: no governo do interventor Bertino Dutra, o capitão do Exército Everardo de Vasconcelos, pertencente ao 9º BC sediado nesta capital, não sei por qual motivo, deu um tiro no então chefe de polícia João Café Filho. Logo que chegou a notícia em Macaíba, o prefeito de então mandou um pelotão da Polícia prender Mesquita e vários de seus amigos, mandando-os colocar na cadeia da cidade junto com presos comuns, só os soltando no outro dia através de habeas corpus.

Anos depois, Mesquita recebeu esse ex-prefeito que mandou lhe prender, sem ódio e ressentimento. Mesquita era assim: não guardava rancor.

Em 1934, o governo da República, na pessoa de Getúlio Vargas, decretou a realização de eleições para governadores dos estados e instituiu o voto secreto, formações de partidos e o direito de votar e ser votado.

O doutor José Augusto e outros correligionários fundaram o Partido Popular, ao qual Mesquita e sua família e correligionários se engajaram.

Em 1935, houve eleição para governador tendo sido eleito o doutor Rafael Fernandes Gurjão. O Partido Popular não durou muito, pois os seus componentes se dividiram entre o PSD e a UDN, ficando Mesquita no PSD. Nesse partido ele se elegeu prefeito por mais de uma vez e deputado estadual por três vezes, mantendo sua incontestável liderança no município de Macaíba e nos municípios vizinhos. Era membro do diretório estadual do partido e foi 1º vice-presidente da Assembleia Legislativa.

Sofreu muitas incompreensões e injustiças, mas a sua estrela sempre brilhou através da nuvem encoberta.

Depois que Mesquita casou com Dona Nair Andrade, seu grande e único amor de sua vida, fui residir em outra casa, mas continuei trabalhando com o mesmo até vir aqui residir em fins de 1934, ele e a esposa foram meus padrinhos de casamento.

Mesquita era bom filho, bom irmão, bom pai, bom esposo e bom amigo, protetor dos desamparados da sorte que o procuravam.

Foi abastado em sua mocidade e quando faleceu era pobre, mas rico de dignidade, de honradez e honestidade.

Que Deus o tenha na sua santa paz.

Seus filhos, de quem sou grande amigo, se orgulham do pai que tiveram.

 
 Natal/RN - Brasil,