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Solar Caxanga por Anderson Tavares

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Em 1850, o Coronel da Guarda Nacional Estevão José Barbosa de Moura (1810-1891), deputado provincial, presidente da Província do RN por três vezes, construiu a primeira ponte sobre o Rio Jundiaí e abriu a estrada Macaíba / Natal, via Mangabeira, tudo por conta própria. Terminou a contrução de um casarão moldado em estilo Colonial Português, para sede da sua Fazenda Barra (primeira denominação de Caxangá).

Fato é que, a Câmara Municipal de São Gonçalo do Amarante, em sessão do dia 20 de fevereiro de 1850, tomou conhecimento da representação do mesmo Coronel Estevão, ao presidente da província, contra seu vizinho da Fazenda Coité. (hoje Macaíba) Capitão Francisco Pedro Bandeira de Melo, o qual possuia sua casa em lugar central no Largo das Cinco Boca; onde atualmente uma loja de móveis ocupa o espaço. É que o capitão estreitara a estrada que desce para o porto de Coité. Em 28 de fevereiro de 1850, a Câmara, tendo em vista a informação do fiscal, ordenou que Bandeira de Melo recuasse a cerca do Coité.


Aos 09 de outubro de 1852, a filha do Cel. Estevão Moura, D. Ana Joaquina de Moura casou-se em grande festa no Ferreiro Torto de propriedade também paterna, com o Bacharel José Moreira Brandão Castelo Branco (1828-1895), e recebeu como dote paterno aquela Fazenda Barra, na qual instalou-se de 1852 a 1857, nascendolhe ali 05 de seus 10 filhos. de 1858 a 1867, a Casa ficou fechada por motivo de o Dr. Moreira Brandão ter sido eleito várias vezes deputado provincial, tendo a família residido em Natal durante esse tempo.

O solar era ocupado pelos ilutres moradores somente nos fins de semana. Em 1868, a família da D. Ana Joaquina de Moura Brandão, volta em definitivo para fixar residêcia no Casarão do "Largo de São José".

Porém devido à morte prematura da primeira proprietária D. Ana, aos 25 anos em 1870, o viúvo Dr. Moreira Brandão deixou o Solar repleto de recordações, passando a morar na Capital com os filhos.

O solar mais uma vez fechado passa agora a velar a imagem desventurada de sua senhora.

Aos 04 de dezembro de 1881, o Cel. Estevão Moura, já septuagenário, casou-se pela 2° vez com D. Generosa Antônia de Lima em cerimônia oficiada pelo padre João Maria em oratorio privado da Fazenda  Barra onde o casal passa a residir; sem as grandes recepções de outrora que fizeram do coronel um grande anfitrião do estado.

Dando um aspecto sombrio à velha morada, em janeiro de 1891 faleceu o coronel Estevam José de Moura, aos 81 anos. Sua esposa e mais o filho, nascido em 1890, permaneceram na fazenda até 1895, ano em que venderam a propriedade ao senhor Lourenço José Correia, agricultor de São Gonçalo.

Através de uma cópia da escritura de venda da Fazenda Barra, datada de 3 de maio de 1895, pertencente à senhora Rayanne Magalhães, descendente de Estevam Moura, tomamos conhecimento das dimensões do sítio: “limitando-se o fundo do sítio para o sul com a rua Luís Fernandes, para Norte com o patrimônio de São José, a partir da Casa de José Expedito à casa de Targino de tal, para o Nordeste com terras de Morada de Joaquim Manuel T. de Moura e a partir da casa do referido Targino à Cachoeira Cunha – Ary passando a linha entre as casas de Francisca Maria da Conceição e Claudino Matias do Nascimento pelo poente com a rua Visconde do Rio Branco”. Ao todo 360 hectares, quase dois terços da atual sede Macaibense.

O novo proprietário passou a cultivar as terras da fazenda, mas desativou as antigas senzalas que ficavam perto de uma cacimba ainda hoje existente. Todavia, como Lourenço Correia não tinha pouso certo, em 1897 vendeu a propriedade ao coronel Afonso Saraiva de Albuquerque Maranhão (1853-1924), procedente de Palmeira dos Índios, Alagoas.

Em 1900, desgostoso com a política local, o coronel Afonso doou a fazenda ao major António de Andrade Lima, seu sobrinho, recolhendo-se ao seu recém-construído solar da Avenida Junqueira Aires, em Natal, onde mais tarde moraria o escritor Luís da Câmara Cascudo.

O major Antônio de Andrade Lima (1879-1950) era sobrinho legítimo da esposa de Afonso Saraiva, dona Apolônia Viana (1862-1911), e de dona Marcionila Viana (1854-1896), mãe do major. Major Antônio casou-se em junho de 1901 com dona Maria Segunda de Andrade Lima (1878-1978), e passaram a residir no solar, visto que a antiga casa do major Andrade, localizada na Rua João Pessoa, foi transformada na fábrica de Cigarros XV de Novembro, a primeira da cidade. O local, hoje, é um restaurante.

O casal Andrade Lima era muito festeiro e organizava saraus que marcaram época na vida da cidade. Otacílio Alecrim (1906-1968), escritor macaibense, tomou parte em uma dessas festas e a relata, em seu livro Província Submersa, nestes termos: “E o piano agachado a um canto do salão, parecia um cágado de ébano a tocar do-ré-mi-fá-sol-lá...” E continua: “Na residência do major Andrade, situada em recuo no começo da ladeira do barro vermelho, teve com sua filha Consuelo (...) minhas primeiras tertúlias literárias. E assinala os autores preferidos na leitura da Casa: José de Alencar, Machado de Assis, Bilac, Afrânio Peixoto e Eça de Queiroz. [...] Antes conhecido como o Casarão do Largo de São José, foi o major Andrade quem batizou a casa de Solar Caxangá”.

Esse foi o período no qual o Solar Caxangá foi o centro de propaganda oposicionista no Município. O major Andrade e o coronel Prudente Alecrim (1863-1927) pontificam na condição dos patronos da oposição política em Macaíba, uma vez que lutaram nas décadas de 1910-20-30, contra o chefe situacionista, coronel Manoel Maurício Freire (1863-1927). Após a morte de Neco Freire, o major Andrade foi o primeiro prefeito após a Revolução de 1930, tendo sido eleito por duas vezes Deputado Estadual.

O major Antônio de Andrade promoveu a recepção de pessoas ilustres em seu belo Caxangá, entre os quais o capitão José da Penha, que lá hospedou-se quando veio a Macaíba para um comício contra os Albuquerque Maranhão. Por lá também passaram Café Filho, tenente Ernesto Geisel, Tavares de Lyra, Auta de Souza, Augusto Severo, Henrique Castriciano, além da Família Imperial do Brasil, que em 1927 visitou o estado. Na oportunidade, o príncipe D. Pedro de Orleans e Bragança, filho da princesa Isabel, teria dito: “Passar uma tarde sob o refúgio das árvores do Solar Caxangá, melhor coisa não há.”

Após uma longa enfermidade, o major Antônio Andrade Lima faleceu em seu solar, no mês de setembro de 195. Profundo silêncio tomou conta do casarão nesse. A viúva dona Segunda, mulher espartana e de refinada educada, assumiu a direção da casa junto com a filha Consuelo, e, meses depois, passaram a receber convidados para o famoso chá da Califórnia, servido com todo o rigor e etiqueta. Entre políticos e intelectuais, parentes e amigos, a casa estava sempre cheia.

Maria Segunda faleceu em maio de 1978, dois meses antes de completar 100 anos. No período de 1981 a 1989 o histórico solar foi alugado por dona Consuelo Andrade à Prefeitura de Macaíba e deu lugar à Secretaria de Trabalho e Ação Social.

Nessa época, Macaíba iniciava um processo de crescimento desordenado e vários espaços antes pertencentes à Fazenda Barra, com sede no Caxangá, foram invadidos, dando origem a projetos habitacionais de futuros bairros: Campo da Santa Cruz, Campo das Mangueiras, Conjunto Residencial Fabrício Pedrosa, Alto Raiz, Morada da Fé, Ruas Eloy de Souza e Coité. Tudo terra desmembrada do Caxangá. Por fim, assistiu-se, em abril de 1998, à derrubada das copas de árvores e seus jardins. Tudo loteado. Com isso, as novas gerações ficaram impedidas de ver uma das paisagens mais bonitas e bucólicas de Macaíba. Em abril de 1989, o solar do Caxangá foi recuperado por Eudes Cordeiro, sobrinho de dona Consuelo, falecida nesse mesmo ano. Dona Inah Andrade, irmã mais nova, foi morar no local com os filhos Letúrzia e Ronald e o neto Eudes Cordeiro, o qual veio a falecer em fevereiro de 1998.

No início de 2001, dona Letúrzia decidiu retirar-se do solar com a mãe e os demais familiares para uma casa próxima. Na ocasião alegou que a mudança era necessária devido aos altos custos de manutenção do casarão e das recordações tristes que guardava da antiga morada. Por fim, em março de 2001 faleceu dona Inah Andrade e, em maio do mesmo, ano dona Letúrzia.

O solar do Caxangá permaneceu fechado durante todo o ano de 2001 até janeiro do ano seguinte, quando foi comprado por um grupo de pessoas preocupadas com a preservação do patrimônio histórico do município. No dia 12 de maio de 2002, o grupo fundou no antigo casarão o Instituto Pró-Memória de Macaíba, tendo como objetivo principal o resgate e a preservação dos bens culturais desse município. Nesse mesmo ano, o prédio do solar foi tombado pelo Patrimônio Histórico do Estado. Hoje, o Instituto dispõe de uma ampla biblioteca, de um vasto acervo iconográfico e espaços históricos da maior relevância, além de ambientes para lançamentos de livros, exposições de artes plásticas, saraus literários etc.

As pessoas interessadas na história e na cultura macaibenses não podem deixar de visitar o Instituto Pró-Memória de Macaíba, onde conhecerão de perto seu valioso acervo artístico e intelectual, síntese da operosidade e do talento do povo desse município, cujos filhos ilustres respondem pelos nomes de Auta de Souza, Henrique Castriciano, Otacílio Alecrim, Tavares de Lyra, Augusto Severo, Eloy de Souza, entre outros, e que são motivo de orgulho não só para o Rio Grande do Norte, mas para todo o Brasil.

Por: Anderson Tavares - Historiador
 
 Natal/RN - Brasil,